Chegando no apartamento reservado dois meses antes, me lembrei que não conversei com a proprietária sobre a chave. Mandei mensagem pelo aplicativo e ela me respondeu que estava com o porteiro. Ao entrar no prédio, me apresentei para o Sr. Jonas que prontamente me entregou a chave do apartamento 903. Sem documentos nem fichas. Peguei o elevador tensa, com medo da realidade não corresponder às fotos do site. Abrimos a porta e tchanran: tudo perfeito, como sonhamos. Com uma vista de perder o ar. Fomos jantar tranquilos, caminhando pela Dias Ferreira, e eu pensando: mais confiança, menos burocracia, mais satisfação. Hotel pra quê?

O airbnb surgiu há nove anos do aperto de dois amigos designers recém-formados que não tinham como pagar o aluguel em San Francisco. Resolveram criar um site oferecendo o aluguel de três colchões infláveis (air bed) que tinham em casa durante um evento sobre design que rolaria na cidade. Para tornar um pouco mais atrativo, ofereceram também café da manhã (and breakfast).  Uma mulher de meia idade, um indiano e um pai de família ocuparam os colchões. Três pessoas que confiaram no site de dois desempregados. Cinco pessoas que mudaram para sempre o negócio hospedagem no mundo confiando uns nos outros. Inovação a partir de confiança.

Quando falamos em governo, serviços e políticas públicas, todos concordamos que, apesar de algumas iniciativas louváveis, ainda não estamos satisfeitos com o valor que o governo entrega ao cidadão, e mais, estamos longe de um ritmo esperado de mudanças para que a situação inverta.

Sendo simplista para ser didática, dentro do governo estão os profissionais públicos, os líderes de equipes e os políticos. Do outro lado, mas com enorme potencial de ajudar na mudança, estão os cidadãos, as empresas, o terceiro setor e a academia.

Sabendo que são esses os agentes, como podemos induzir a confiança entre eles para acelerar a transformação digital?

Enquanto cidadã, sei que é extremamente difícil confiar em quem está do outro lado. Vivemos um momento de total descrença no governo e em todos que o compõe. No entanto, talvez o momento seja de aumentar o nível de confiança em si mesmo, reconhecer que temos poder para mudar a situação e partir para a ação. Como?

A forma mais concreta, direta e acessível que a democracia te proporciona é o voto. Mas ele só acontece a cada dois anos. Participar ativamente das decisões do país é não apenas desejável como cada vez mais possível. Diversas ferramentas existem para, inclusive, facilitar esta interação.

Recentemente, a reforma política que está em discussão na Câmara trouxe duas propostas que causou a indignação de boa parte da população:

  • o sistema eleitoral distritão, que concentraria a eleição em poucos candidatos, diminuindo a possibilidade de renovação e
  • o fundão, novo Fundo Especial de Financiamento da Democracia, que dedicaria cerca de R$3,6 bilhões de recursos para partidos organizarem suas campanhas, com regras de distribuição que seguiriam concentrando poder nas mãos de poucos.

Passei um fim-de-semana entrando em páginas de perfil dos parlamentares exigindo saber qual era sua posição a respeito das medidas. Até que descobri que alguns movimentos apartidários criaram o site https://www.reformaquequeremos.org/ que automatiza o envio de e-mails para todos os 512 parlamentares, bastando fornecer seu nome, sobrenome e e-mail. Ele inclusive já sugere um texto padrão para a mensagem que você pode alterar como quiser. A indignação sai direto do nosso sofá para atingir o sofá dos que estão lá para nos representar. Cidadãos construíram ferramenta para ajudar outros cidadãos a participar das decisões do país. Confie, você já pode querer e participar!

Enquanto isso, do lado de cá, o LabHacker, laboratório de inovação da Câmara dos Deputados, lançou recentemente um canal para que qualquer cidadão possa escolher os projetos que devem ser votados pelos nossos deputados. O Pauta Participativa está coletando as escolhas do cidadão e a Câmara colocará em pauta os projetos de cada tema que tenham obtido o maior saldo positivo de votos, ou seja, votos favoráveis menos votos contrários.

O sistema de votação adotado pela Pauta Participativa é inspirado em trabalho realizado pelo matemático Karel Janeček que propôs um método inovador de votação, denominado Democracia 2.1.

A Câmara confiou no método proposto por um acadêmico para criar uma ferramenta que confia no poder do cidadão de priorizar as votações no Parlamento.  E não é só isso. Ainda convidou três observadores para acompanharem o processo: o consultor Fabiano Angélico, da Transparency International; e os professores Marisa von Bülow, do Instituto De Ciência Política – IPOL/UnB; e Rafael Cardoso Sampaio, do Instituto de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPR (Universidade Federal do Paraná). Controle social on-the-fly… Fantástico, não?

O último post do Wesley aqui no República nos desafia não apenas a pensar fora da caixa, mas a desconstruir as caixas dos órgãos públicos, criando um mutirão de cérebros da administração pública, de forma que as pessoas possam trabalhar em projetos, independente de que órgão é dono do projeto, ou de que órgão cada participante está lotado. Eu costumo gostar das provocações do Wesley, mas essa última realmente é de tirar o fôlego. Ele se superou.

No entanto, a realidade hoje é que não conseguimos sair da caixinha nem dentro de um órgão, ou seja, é difícil que pessoas contribuam para projetos que não são da sua unidade de lotação. Mas é preciso tentar. E, para tentar, é preciso confiar! Líderes devem confiar em estratégias de descentralização, estratégias que superem os organogramas à moda antiga de sua instituição. Precisam confiar que profissionais não vinculados a ele também podem contribuir. A instituição precisa confiar que a colaboração entre pessoas é mais importante do que o respeito a caixinhas. Uma organização mais fluida permite que os profissionais encontrem projetos que combinem com seu propósito. Quando isso acontece, os profissionais engajam de maneira efetiva. Uma organização mais fluida, com profissionais mais engajados, vai entregar produtos cada vez mais relevantes.

Quando saímos do aeroporto no Rio, pegamos um Uber. Rápido, tranquilo e barato. Minha filha, 10 minutos depois de desembarcar do carro, percebeu que estava sem celular. Rapidamente peguei o meu para ligar para o motorista. Meu marido pegou o dele para confirmar por meio do compartilhamento familiar que o celular dela estava passeando pelo Rio. Conversei com o motorista e ele encontrou o celular dentro do carro. Combinou que me devolveria assim que conseguisse voltar ao local onde nos deixou. Respiramos aliviados quando ele chegou com o celular nas mãos.

Bem como o airbnb, a empresa Uber encontrou um mecanismo que viabiliza a confiança entre os atores. Passageiros confiam nos motoristas e motoristas confiam nos passageiros porque a plataforma permite que avaliemos o trabalho prestado pelo fornecedor e o comportamento do consumidor. O desenho da solução garantiu um ambiente confiável.

Para o governo mudar, para a sonhada transformação digital rolar, é necessário que você, cidadão, confie em si mesmo. É necessário que você, profissional público, confie nas instituições, e gere ambientes confiáveis que estimulem a colaboração entre os atores. Não estou neste post sugerindo que você confie nas pessoas e instituições de olhos fechados. Meu convite é que você parta da premissa de que ambientes recheados de confiança produzem melhores resultados. E não se esqueçam que tecnologia e novos modelos de negócio podem ajudar a criar o ambiente confiável, onde pessoas podem andar no carro de um desconhecido, alugar o quarto na casa de uma pessoa que nunca viu, e ainda assim sentirem-se seguras.

O que podemos aprender com essas soluções que utilizamos rotineiramente e que transformaram nosso nível de confiança no ser humano? Como podemos trazer este novo mundo para dentro da administração pública? É chegado o momento de crer para ver a inovação acontecer!