Foi no início de agosto e parece que foi ontem. Estive na terceira edição do Friends of Tomorrow Conference, que se considera o maior evento de futurismo independente do país. Essa ida me fez ter que enfrentar bullying de leve intensidade de um amigo próximo: vá lá aprender a prever o futuro e me conte os próximos números da mega sena. Nada disso!

Refleti sobre muita coisa durante o dia em que estive lá, a começar por reforçar meu entendimento de que o futuro é uma simples ilusão temporal, e o que acontece por lá depende do que está acontecendo por aqui, no presente. A outra constatação é filosófica: o que você vê é mesmo tudo o que há (por Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia de 2012) e, por isso, as pessoas não têm ideia daquilo que não conhecem.

Uma palestra sobre a importância das informações históricas combinadas com algoritmos de inteligência artificial aplicados à pesquisa de cura do câncer me tocou. Por ser parte da história de muitas famílias (a minha inclusive), a expectativa de resultados significativamente melhores pareceu ser bem possível no futuro. Ouvir sobre a cura de pacientes com tratamento genético associado ao aprendizado de máquina e ao crowdsourcing, além do wow fator, enche de esperança e vontade de ajudar. Mensagem marcante: “não pense somente em doar órgãos. Esteja disposto a doar dados”.

O futuro pode ser melhor. Inclusive na política e na participação popular, como disse o Pedro Villa Nova na sua fala espetacular sobre o projeto Serenata de Amor. A propósito, parabéns pelo aninho de vida do projeto, pelos resultados obtidos até agora e pela forma madura como analisa as possibilidades futuras de envolver profissionais públicos e cidadãos na missão de melhorar o ambiente político do pais. Afinal, se não formos nós….

Meu destaque do evento vai para a galera do Pluvi.on. A ideia do projeto é construir pluviômetros muito acessíveis, com sensores conectados à Internet e enviando dados para o mundo, o que permite com que desastres naturais possam ser previstos com mais rapidez e, no limite, poupe vidas. Mas também pode servir para auxiliar o Estado com informações úteis para decisão dos locais de construção de obras de contenção ou de coleta de água. Ideia barata, facilmente replicável e um belo exemplo de que, com baixo custo, muita criatividade e vontade de fazer, coisas ruins que acontecem hoje podem ser evitadas com uso inteligente de tecnologia e envolvimento das pessoas e das instituições públicas e privadas.

E ainda teve o maluco do Bibop, um italiano que lembra o Prince e que tentou engajar a plateia citando a Grazi Massafera. Conseguiu, mas não por isso. Descreveu o Hyperloop TT, empresa que quer viabilizar a construção de tubos isolados em vácuo que, por meio de energia eletromagnética, vai poder transportar pessoas de modo seguro a uma velocidade impressionante. Muito interessante e divertido. Mas preciso ressaltar dois pontos inspiradores. O primeiro: o sistema é projetado como de energia positiva, ou seja, ele pretende não só ser auto-sustentável como gerar energia por onde o bonde passar (na ordem de 15%). Não vou esconder minha tristeza quando lembrei do pré-sal.

E o segundo e mais importante: o projeto tem sido sustentado tecnicamente a partir do que ele chamou de crowd brain. Dada a complexidade do projeto, não bastaria somente ter os recursos financeiros para iniciar a produção. Era preciso atrair uma série de profissionais para resolver os problemas práticos do projeto. A partir daí, houve uma chamada de voluntários que ofereciam trabalhar em suas especialidades em troca de ações da companhia. Engenheiros e professores renomados de todo o mundo toparam e, por causa disso, o projeto já está em vias de iniciar a construção do seu primeiro trecho.

A partir daí iniciei a minha viagem. Pensei na viabilidade e no impacto de um grande projeto de mutirão de cérebros governamental (minha tradução livre para a expressão original). Para um projeto realmente relevante e estratégico para a sociedade. O quanto seria viável abrir oportunidades para profissionais de outras instituições públicas ou áreas de formação que pudessem contribuir para uma solução de impacto, que melhorasse diretamente a vida das pessoas?

Seria possível institucionalizar o modelo e exponencializar o efeito das forças-tarefa que funcionam?

Será que os profissionais públicos deixariam a estabilidade e o conforto do trabalho cotidiano para sair do prumo e ir em direção a um grupo novo e multidisciplinar, que fosse remoto? Sinais surpreendentes vieram como resposta a essa questão, por duas plateias de 400 pessoas cada a cerca de 15 dias atrás, em um grande evento sobre Governança Pública. Nas duas ocasiões, enquanto instigava a plateia a pensar em quantas carreiras teríamos até que parássemos de trabalhar, a resposta foi clara: “Não sabemos. Mas por que não sermos realocados, de tempos em tempos, em projetos e em instituições em que se adequassem ao perfil e ao interesse de cada um?”

Sem inocência, pessoal. Mudar não é para todos. Mas reflita se você não conhece alguém na sua organização que esteja perdido, fazendo o trabalho de maneira certinha (ou nem tanto) mas desapaixonada? Aquela pessoa que só faz aquilo porque passou no concurso e foi alocada por lá, mas o que ela queria mesmo era participar de projetos de construção de escolas. Em que medida o Estado pode deixar o profissional fazer o que ele de fato quer ou o que mais se adeque às suas competências segundo o interesse público?

Estímulos, incentivos e regras mínimas precisariam ser pensados, obviamente. Penso que o mutirão dos cérebros seria muito mais do que a instituição de grupos de trabalho que, salvo exceções que conheço e vivi (que sorte!!), se compõem de pessoas que não fariam tanta falta assim nas instituições de origem. É a reunião de competências e vontades para transformar propósito e estimulo em resultado real e efetivo, segundo especialidades e motivações feitas sob medida para o grupo.

Para estimular a reflexão, recorro a um artigo publicado em junho na Harvard Business Review, que defende a necessidade urgente de os profissionais dominarem competências emocionais, especialmente com o avanço dos serviços de inteligência artificial. A tese do artigo é muito simples: cada vez mais as máquinas terão mais informação e capacidade de processamento que os humanos. O novo esperto não é o que tem a memória acima da média ou a capacidade de calcular fora da curva, pois ele nunca será tão bom quanto a nuvem nessa tarefa. O novo esperto será determinado pela qualidade das suas reflexões, capacidade de ouvir, se relacionar, colaborar e aprender com novas situações. Em suma, quantidade seria com as máquinas e qualidade, conosco.

Em complemento, estudo publicado pela The Economist apontou fatores em comum das empresas “superstars”, aquelas que lideram seus ramos de atuação e sobrevivem aos solavancos da inovação. Duas das características sustentam argumentos a favor do mutirão de cérebros e da sua institucionalização.

A primeira delas ressalta a obsessão por manter e construir talentos nas organizações, independente da cultura da organização. E isso não necessariamente se vincula à formação acadêmica ou cargo inicial na organização. Descobrir a melhor competência e habilidade e valorizar isso é óbvio e corriqueiro para as grandes do mundo.
A segunda característica das superstars fere de morte nosso modelo mental. As superstars fazem tudo o que podem para se manterem ágeis apesar do seu tamanho. Em outras palavras, elas brigam dia e noite uma guerra constante contra a burocracia herdada. A missão é clara: eliminar qualquer complexidade desnecessária.

Será a reunião institucional dos talentos o futuro das carreiras públicas? Um modelo para reunir entendedores sobre determinado assunto para gerar informações e aprendizado coletivo, é preciso administrar interesses, angústias e desejos de poder, que talvez ainda se sobreponham ao propósito e a chance de colocar no curriculum um projeto disruptivo e transformador. Mais que isso, a chance de ser alocado em uma iniciativa ideal para você para o Estado.

Busca de propósito na linha do Ikigai, uma expressão japonesa que significa ”razão de existir”, e que é representado pela interseção de quatro desejos: fazer o que ama, o que você é competente, o que o mundo precisa e o que te pagam para fazer. Conseguir tudo isso é o nirvana profissional (ou o Ikigai!), mas qualquer combinação de duas dessas variáveis já está valendo, e muito. No serviço público então….

E que tal um mutirão de cérebros onde você trabalha, na forma de um projeto corporativo lean e ágil? A partir de um processo seletivo e sobre liderança técnica compartilhada, por pessoas que se esforcem em tentar manter o trabalho focado, as pessoas motivadas e os resultados medidos. Sim, dá trabalho. E sim, é muito desafiante considerando o mindset do serviço público. Mas e se o futuro exigir isso das carreiras públicas?

Não me parece que nós, os profissionais públicos, podemos deixar de pensar em como moldamos, no tempo presente, o futuro das nossas carreiras. E isso nos faz todos futuristas! Não pela habilidade de prever o que vai acontecer no futuro, mas pela disposição em projetar e modelar cenários desejados a partir do que fazemos hoje. De preferência, juntos.

E quando voltei, não trouxe os números para o meu amigo fanfarrão. Voltei mais convicto ainda de que a estratégia dos disruptores para fazer reais os seus cenários futuros desejados não pode ser baseada no grito ou na hiper valorização de uma aspecto em detrimento de outro. O algoritmo é conhecido: reúna pessoas ao redor de um propósito, construa algo que resolva efetivamente o problema e trabalhe a percepção deste resultado junto aos envolvidos. Sem guerra de nervos, argumentos ultra-técnicos ou feições de arrogância.

Ensine aos que precisam aprender e demonstre aos que precisa convencer. Assim, estes passarão a saber que já sabem. Pronto! A partir dai, a sua versão de futuro já é possível.

 

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