Há algumas semanas um colega estava com um fornecedor de TI discutindo as necessidades do setor dele. Ao final da reunião, assunto encerrado, o representante da empresa pergunta: – “Muito bem, mas quando é que nós vamos reunir um grupo técnico no governo para falar de blockchain?”.

Fiquei surpreso com o relato. Foi a primeira vez que ouvi falar em um princípio de discussão sobre o uso de blockchain no governo brasileiro (análise de dados – em todas as suas formas, cores e tamanhos – parece ainda ser “a bola da vez”). Mas, gato escaldado que sou com fornecedores tentando (e muitas vezes conseguindo) vender balas de prata para o setor público, fiquei ressabiado.

Como comentei em outro artigo, grandes empresas começaram a oferecer uma nova categoria de produto chamada de “blockchain as a service”. A pressão sobre essas equipes para que mostrem resultados (isto é, vendas) rapidamente deve estar sendo grande. É do jogo! Afinal essas empresas vivem em um ambiente de concorrência e não querem ficar atrás umas das outras. Mas ser ou não um participante ou uma peça nesse jogo é uma opção que cabe a cada um de nós gestores públicos – e como sempre os custos, riscos e potenciais benefícios devem ser tão bem calculados quanto possível.

A tecnologia blockchain nasceu com o Bitcoin há menos de dez anos. O segundo blockchain com alguma relevância, Ethereum, fez há pouco seu segundo aniversário! Vivemos um momento de altíssima incerteza, com novos blockchains públicos, privados e permissionados nascendo numa velocidade difícil de acompanhar. Nada impede que esses novos entrantes demonstrem possuir vantagens e se tornem verdadeiros padrões de mercado, mas quando se trata de um tema em que a segurança e a confiabilidade dos dados são elementos tão importantes é preciso levar em consideração que ninguém ainda sequer passou perto de ser tão colocado à prova quanto Bitcoin e Ethereum já foram (somadas, as duas já chegaram a ter 90 bilhões de dólares “armazenados” nos seus blockchains – um prato cheio para hackers de todo tipo).

Nesse contexto, voltando ao “convite” feito pelo fornecedor do primeiro parágrafo, não me parece que seja a hora de assumir grandes compromissos e fazer investimentos significativos em relação ao tema. O que está longe de significar que defendo que fiquemos alheios a todo esse processo de inovação, assistindo os bondes passarem e esperando para copiar o que outros órgãos ou países vierem a fazer. Muito pelo contrário! Eis o que na minha opinião você pode começar a fazer hoje para que você, seu órgão e principalmente o Brasil não fiquem para trás:

  1. Monte um time de peso! Busque em seus quadros duas ou três pessoas fluentes em inglês e em pelo menos uma linguagem de programação, autodidatas, que dominam a dinâmica dos projetos open source (será importante saber se comunicar nesse meio) e que se interessam pela tecnologia blockchain. Acredite: elas estão aí! Talvez estejam soterradas na burocracia por alguém que não soube reconhecer o seu potencial, mas estão aí. Abra um processo seletivo interno, dê-lhe ampla divulgação e elas aparecerão. Se não encontrar, procure no órgão vizinho, faça uma permuta, uma parceria, complemente o time com estagiários… Enfim, “dê seus pulos”, como se diz por aí. Só não vale desistir antes de tentar.
  2. Dote-o de recursos! Coloque na mão dessas pessoas os melhores computadores disponíveis no órgão. Não, não precisa de uma placa de vídeo de última geração – o objetivo, pelo menos a princípio, não é minerar criptomoedas aqui. Lote-as em uma sala confortável e ergonômica (como todas as salas deveriam ser), com alguns quadros brancos nas paredes.
  3. Empodere-o! Tire-as do circuito do planejamento tradicional, dos indicadores e das metas. Dê a elas autonomia para que testem diferentes plataformas (cabe a elas escolher quais, desde que dentro das restrições orçamentárias impostas) e busquem firmar as parcerias que entenderem pertinentes. Deixe que explorem livremente as possibilidades de uso da tecnologia relacionadas ao negócio da organização. Não cobre resultados. Exija, sim, prestação de contas! Reúna-se periodicamente com a equipe para saber o que estão fazendo, registre os tempos consumidos por cada macro-atividade, envolva-se e ofereça mentoria no que for preciso. Mas sem pressão.
  4. Dê-lhe tempo! Tenha alguma paciência. Em poucos meses, no pior dos cenários você terá gasto somente alguns homens-dias em troca de mais experiência para subsidiar futuras tomadas de decisão sobre o assunto. Não tenha dúvidas: necessidades de tomar decisões sobre esse assunto surgirão! E essa equipe estará no mínimo preparada para fazer as perguntas certas a novos interlocutores.

“Ah, mas eu não tenho poder de decisão na minha organização! Eu sou só [sic] aquela pessoa que você sugeriu que estivesse nesse time. O que eu faço?”

OK, a sua vida vai ser um pouco mais complicada. Em primeiro lugar, faça sutilmente chegar este artigo às mãos de um ou mais decisores. Não sei se vai ajudar, mas atrapalhar não vai (espero!). Se isso não for suficiente, respire fundo, arregace as mangas e faça uma espécie de piloto de tudo aquilo que está descrito ali em cima: reúna as pessoas certas, estabeleça uma agenda de encontros para troca de experiências e explorem a tecnologia no tempo livre. Não demorará para que vocês tenham um plano, um mockup ou quem sabe até um protótipo para apresentar a um patrocinador capaz de institucionalizar a iniciativa.

Enquanto redigia este texto, fiquei sabendo do projeto piloto para verificação de documentos e identidades feito pelo Ministério do Planejamento usando uPort, um sistema de identidade desenvolvido sobre a rede Ethereum. Parabéns aos colegas! Espero que tenham espaço para continuar avançando ainda mais! Se algum dos envolvidos estiver lendo, por favor compartilhe mais detalhes da experiência nos comentários!

Outro campo fértil para o blockchain no setor público é o da transparência das receitas e despesas públicas. Uma nova criptomoeda poderia ser criada em um blockchain já existente para representar recursos públicos. Não se trata de criar uma moeda para fazer os pagamentos de fato, mas sim de um mero “espelho” público, imutável e abertamente auditável do que já fica registrado nos sistemas de execução orçamentária. A criação de novas unidades dessa moeda não seguiria regras como as de bitcoin ou de ether. Ao invés disso, estaria vinculada à comprovação de receitas efetivas e seria controlada por uma conta específica pertencente ao governo. E as despesas seriam refletidas na transferência dessas unidades para outras contas no blockchain que representariam cada um dos recebedores de recursos.

Para quem se animou com a possibilidade de aplicar essa tecnologia na sua área, registrei em um artigo no meu perfil do LinkedIn outras ideias que já me ocorreram e sobre as quais ocasionalmente penso. São coisas com as quais eu, como cidadão e auditor, gostaria de ver o setor público experimentando. São ideias em estado ainda bastante bruto; humildes fagulhas que espero servir para iniciar algumas discussões. Acesse o artigo clicando aqui e deixe lá sua opinião!

E no seu órgão, em que pé estão as conversas sobre esse assunto? Tem experiências para compartilhar? Imagino que muitos dos leitores do República Digital tenham passado por desafios semelhantes quando do nascimento de outras tecnologias no passado. Ocupe a caixa de comentários! Será um prazer ampliar e aprofundar a discussão!