Quando eu conto, aqui no Brasil, sobre educação da Finlândia, as pessoas dizem:

– Isso não dá certo aqui! Poucas horas-aula e quase nada de tarefas de casa? Aprender a cozinhar e fazer marcenaria? Autoavaliação e diários de aprendizado? Nada de provas padronizadas? Nem rankings nacionais? Subir nas árvores e estudar poesia? Isso não dá certo!

Depois de ter estudado na Finlândia do ensino fundamental até o mestrado, eu cheguei ao Brasil e tive de fazer um curso de formação para poder tomar posse no serviço público. Pensei exatamente a mesma coisa: isso não dá certo! Aulas expositivas de manhã e de tarde, provas padronizadas para marcar certo ou errado, salas de aula sem diálogo, presença obrigatória. E não, ninguém subiu em árvores e muito menos tinha poesia nas aulas.

Qual é o melhor modelo educacional?

Será que tem um modelo educacional perfeito que pode ser aplicado no mundo inteiro? Ou será que cada país tem resultados com o seu próprio modelo?

Eu só sei que o modelo finlandês não pode ser tirado do seu contexto histórico-cultural e implantado com tal em um outro país. A nossa educação deriva da formação de uma mentalidade nacional que data de séculos. Já na Idade Média os finlandeses só podiam se casar se tanto o noivo como a noiva soubessem ler e escrever. E não só ler: tinham de entender e interpretar a leitura.

Desde então constrói-se a sociedade baseada em conhecimento e igualdade de oportunidades. A profissão de professor é muito respeitada. Até hoje é um dos cursos mais almejados e apenas 3 de cada 10 candidatos passam na seleção criteriosa para poder ingressar o curso de formação de professores.

Mas isso não significa que boas práticas finlandesas não possam ser aproveitadas em outros países. Educação centrada no aluno, protagonismo do aprendiz e aprendizagem por meio de projetos práticos são facilmente implementadas em qualquer parte do mundo e adaptáveis a cada contexto local. É comum na Finlândia cada aluno construir seu próprio material a partir de pesquisas e as aulas serem usadas para co-criação em vez de o professor “passar a matéria”.

Certo de que isso exige uma mudança de mentalidade. Em algumas culturas, a crença de que o professor precisa passar a matéria está muito enraizada. Aqui no Brasil eu já ouvi de pais de alunos que acharam um absurdo o professor treinado na Finlândia colocar o filho deles para trabalhar quando é ele que recebe o salário.

Currículo baseado em competência e focado em fenômenos

Acontece que o aluno não consegue atingir o objetivo do currículo nacional finlandês – que é crescer como ser humano e como cidadão – se ele fica “assistindo aula” por nove anos. Ele precisa adquirir as competências da Era Digital desde cedo. Portanto, os componentes do currículo da Finlândia são, em vez de conteúdos, as competências do século 21:

  • Pensamento sistêmico;
  • Comunicação e interação;
  • Cuidar de si e de outros;
  • Multiliteralidade (em vez de alfabetização foca-se em aprender ler e interpretar também em meios digitais, programar etc.);
  • Tecnologia de informação e comunicação;
  • Empreendedorismo;
  • Participação na construção de um futuro sustentável.

Alguém viu aí aulas de matemática ou geografia? Não é que os conteúdos acabaram, mas as disciplinas serão trabalhadas em torno de fenômenos e no final do curso o objetivo não é dominar Física 1 ou Inglês básico. É aprender a aprender – e ter prazer nisso – e usar o conhecimento para ser um cidadão e um ser humano competente.

A proposta é que os alunos que passam por este tipo de escola sejam profissionais diferenciados no futuro. Mas isso não significa que nunca mais precisam aprender nada. Na Finlândia mais da metade da população adulta continua estudando para sempre no serviço. Até porque o mundo muda e precisamos sempre novas competências.

Adultos não sobem em árvores, mas tampouco sentam na sala de aula

Tudo bem, os adultos podem não subir tanto nas árvores como no ensino fundamental, mas o ensino deles também não acontece entre quatro paredes. Até porque já sabem ler e podem estudar o material em casa em vez de sentar numa sala de aula e alguém ler para eles. E porque a vida real não está na sala de aula.

O currículo dos adultos nos locais de trabalho também é baseado em competências e não em conteúdo. O objetivo é crescimento pessoal e desenvolvimento de competências. E como isso é feito na prática? Posso destacar cinco pontos.

  1. Em primeiro lugar, o ensino de adultos é personalizado. É construído pelo aluno e é o seu compromisso pessoal em vez de ser algo enfiado goela abaixo pela gestão. A base para isso vem do ensino básico. Lá os alunos já aprenderam a aprender se responsabilizar pelo seu desempenho. Eles confiam em si, na sua capacidade e um no outro.
  2. Em segundo lugar, o adulto aprende por meio de mentoria, uma ação colaborativa que apoia e promove processo de aprendizagem e solução de problemas, usando métodos que empoderam os alunos. De fato, algo que já acontece de certa maneira no ensino básico em que o professor tem o papel de um mentor. Ele empodera o aluno, sendo que é o aluno que é responsável pelos seus resultados.
  3. O terceiro ponto é a interação e aproximação dos alunos e com os stakeholders da vida real. As tarefas de aprendizagem, as práticas, os materiais derivam de situações reais da vida laboral.
  4. Além de interação, colaboração é o quarto chave. Os alunos trabalham juntos e constroem novos conhecimentos em cooperação com pares e parceiros alheios. Eles têm responsabilidades como indivíduo e como grupo, e precisam atingir o melhor resultado para ambos. Tanto a interação e a colaboração também já são premissas desde o ensino infantil.
  5. Por último, tudo é baseado em adaptabilidade – habilidade de adaptar o seu comportamento e seus planos face a novas circunstancias. É experimentar e errar. Ousar. O ponto de partida não é o que o profissional não sabe. O famoso gap. É o que ele sabe e como construir novo conhecimento em cima disso para enfrentar novas situações e desafios.

Fabiana Ruas falou dos pilares da transformação digital no seu post aqui. Segundo ela, o caminho percorre os seguintes pontos: confiar, empoderar, aproximar, colaborar, experimentar, redesenhar e escalar. Pasmem! São exatamente estes os princípios da educação de cidadãos digitalmente competentes e humanos na Finlândia – país que lidera o ranking que avalia digitalização de serviços públicos (veja ranking aqui).

Embora a Finlândia lidere também os rankings que medem qualidade de ensino, não sei dizer se a receita funcionaria aqui no Brasil. Porém sei que tanto no ensino de crianças como de adultos, você pode preparar os alunos para uma prova ou para a vida. A Finlândia escolheu a vida.