Outro dia meu marido sugeriu que, ao invés de participar de eventos e assistir 8 palestras em um dia, eu deveria passar o mesmo número de horas em casa assistindo TED talks sobre o assunto do evento. Apesar de constantemente me “alimentar” dos TEDs, os motivos por preferir participar de conferências, seminários ou oficinas são vários, mas acho que o principal é a oportunidade de ficar focada no assunto para organizar o pensamento, ter novas ideias e inclusive jogar algumas fora. Quase um retiro.

Não foi diferente na Campus Party que aconteceu em Junho aqui em Brasília. Durante a minha visita, percebi que o discurso da maioria das startups está carregado de princípios de um conjunto finito de abordagens. Design thinking, metodologia ágil, management 3.0, organizações exponenciais são alguns exemplos de métodos que permitem que startups sejam o que são. Segredo do sucesso? Talvez…

Percebi também que essas abordagens têm princípios que, de alguma forma, são parecidos.  Por exemplo, o manifesto ágil diz que indivíduos e interações são mais importantes do que processos e o management 3.0 diz que pessoas devem ser empoderadas. Parecido, certo?

Ainda cercada por campuseiros, me perguntei: e se colocasse algumas dessas abordagens no liquidificador? E se reagrupasse os princípios de cada uma por similaridade? Será que funcionaria para o governo? E se batizasse cada grupo como um dos pilares da transformação digital? Funcionaria? Ou melhor… vamos ver se funciona?

Fonte: https://www.flickr.com/photos/thomashawk/3317882599/

 

Pilares da transformação digital

CONFIAR

Fonte: https://thenounproject.com

A transformação digital vai acontecer se confiarmos nas pessoas que são agentes desta transformação. Apenas pessoas energizadas podem construir o país do futuro agora no presente. Cada pessoa se motiva de maneira particular, inclusive os profissionais públicos! Precisamos extrair o melhor de cada um.

Precisamos confiar que as pessoas são capazes para este desafio, e que é necessário cuidar para que sejam competentes. Esqueçam as ações de capacitação tradicionais que são adequadas à lógica industrial. É necessário aproveitar a era digital para turbinar as escolas de governo.

Você pode se perguntar se as pessoas que estão hoje conectadas ao governo são suficientes para provocar a transformação. Mas por que precisamos de um quadro fixo para desenhar e sustentar os serviços e políticas públicas? Será que abordagens flexíveis, com profissionais sob demanda, conseguem manter o governo funcionando? Precisamos trazer a flexibilidade dos novos mercados e negócios para o governo. As startups escalam rápido porque os negócios são desenhados para permitirem quadros enxutos.

EMPODERAR

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Discutimos aqui  que a burocracia nasceu porque processos detalhados e bem documentados eram considerados mais importantes do que pessoas. Para desburocratizar, precisamos aceitar que indivíduos são mais importantes do que processos.

Além disso, precisamos de pessoas empoderadas para que possam tomar decisão com agilidade. Se as pessoas são importantes, estruturas organizacionais não devem concentrar o poder nas mãos de poucas delas. Menor concentração de poder deixa os times com maior autonomia e acelera a mudança de rumo, já que vivemos na era que tornou o mundo pouquíssimo previsível.

Mas e o risco de se confiar e empoderar as pessoas? O risco pode ser mitigado pelo alinhamento de restrições. Trocar regras (que ditam exatamente o que se deve fazer) por restrições (que definem apenas onde se quer chegar) traz agilidade e, ao mesmo tempo, mantém os riscos controlados.

APROXIMAR

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Inovar é desenhar solução que tenha modelo de negócio sustentável, tecnologia acessível e, principalmente, foco no usuário da solução. No caso do governo, estamos desenhando algo para o cidadão! Mas como conhecer o cidadão?

Temos montanhas de dados. Por que House of Cards é sucesso de público? Porque Netflix não desenha um episódio sem usar tudo que sabe sobre as preferências e comportamentos dos seus clientes.

E esses dados não precisam mais ser de ontem. Podem ser de agora e devem ser utilizados para medir o desempenho dos serviços e políticas públicas por meio de dashboards. E os resultados devem ser medidos quanto ao impacto, não de reação apenas.

Podemos também, ou melhor, devemos usar as redes sociais para interagir com o cidadão. Por que criar novos canais se passamos 24 horas do dia em Facebook, Twitter, WhatsApp, e-mail, etc… Lembrando que são vias de mão dupla: informação vai e vem.

COLABORAR

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Devemos buscar a colaboração do cidadão para o desenho de políticas e serviços. A recente Lei 13.460/2017, já comentada aqui no RD, exige que todos os serviços oferecidos ao cidadão sejam avaliados por quem os utiliza. Essa é uma forma de o cidadão colaborar, mas não é a única.

E se a gente convidar o cidadão para co-criar soluções com o governo? Solução inovadora surge perto de onde o problema acontece e diversidade aumenta a qualidade do serviço que será entregue.

Precisamos entregar serviços que potencializem o uso da força do crowd e que transformem governo em plataforma. O cidadão não é só usuário ou cliente. Ele é também nosso patrão, por isso as ações devem ser banhadas de transparência. Quando aumenta a transparência, aumenta o engajamento.

EXPERIMENTAR

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Já dissemos que é necessário responder às mudanças com agilidade. Também é necessário experimentar novas possibilidades. Temos muitas mentes brilhantes, dentro e fora do governo, para pouca inovação. Laboratórios estão sendo criados mundo afora ao redor do governo para trazer inovações para serviços e políticas públicas.

Mas inovar é arriscado, certo? Somos avessos, né? Mas lembre-se: o custo de produção está cada vez mais baixo, vide o movimento maker que cresce de forma exponencial hoje, e o custo de não fazer pode ser muito maior do que de errar. Para diminuir o risco da inovação devemos prototipar soluções, experimentar com pequenos e controlados públicos antes de implantar serviços em larga escala.

Isso significa testar rápido, para aprender rápido e melhorar rápido. Não busque o serviço ou produto completo e perfeito no primeiro momento. Busque desenvolver o mínimo produto viável para ir ao mercado e coletar impressões. Esse feedback deve ser consumido para construir melhores versões dos serviços.

REDESENHAR

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Ser digital não é ser eletrônico. Não significa informatizar processos de trabalho antigos. Ser digital é repensar modelos de negócio e desenhar novos serviços.

A era digital é também a era dos algoritmos. Diversas profissões estão ameaçadas. Não apenas o trabalho braçal está sendo substituído por algoritmos. A inteligência artificial está substituindo o trabalho intelectual também. Diagnósticos médicos, pareces jurídicos, análise de sinistros são alguns exemplos. Qual impacto no tamanho do Estado e no número de profissionais públicos?

No entanto, nossa tolerância a erros, ou a indisponibilidade, ou a ausência de informação, ou a informação errada é perto de zero atualmente. Mercados estão sendo reescritos em função da tecnologia abundante, mas para isso precisamos de software que funcione.

ESCALAR

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Para conseguir engajamento do cidadão, para conseguir usar a força do crowd e tirar máximo proveito dos algoritmos, é necessário (re)pensar de que forma os serviços vão interagir com a comunidade. As interfaces são fundamentais para que serviços sejam escaláveis.

Além disso, o governo precisa analisar de quais ativos deve ser proprietário, ou o que pode ser locado sob demanda. A tecnologia permite que as organizações compartilhem facilmente seus ativos não apenas localmente, mas também globalmente, sem fronteiras.

Para que o governo se reinvente e repense sua forma de entregar produtos e serviços, a estrutura organizacional também precisa ser revista. Times devem ser células independentes, que contemplem o máximo de etapas de produção ou entrega de serviços. Times especializados em partes de processos de trabalho devem ser exceção, e não a regra. Uma estrutura escalável permitirá crescer quando for necessário e recolher quando a necessidade se for.

Governo digital

No meu último post, conversamos sobre o líder da era digital e destaquei que ela é marcada por ser não linear – não precisamos terminar uma coisa para começar outra; multidisciplinar – os problemas não resolvidos precisam de conhecimento de várias disciplinas; conectada – o smartphone é o novo braço; imprevisível – as conexões geram infinitas possibilidades.

Vivemos uma mudança de era, onde uma nova lógica está substituindo a lógica industrial linear. E aí vem a pergunta: que governo podemos construir quando sabemos que o mundo mudou e possibilidades mil surgiram? Contrariando definições já postas e consagradas e inclusive discussões que já rolaram aqui no RD, vou partir de um princípio diferente:

Governo digital é o governo sonhado e merecido pelos cidadãos da era digital.

Reforço a mensagem do Braz: governo digital não é governo eletrônico. Mudar o governo por meio da tecnologia não é impossível, mas não é suficiente.

Diversas mudanças no mundo marcam a nova era, mas uma das principais são as startups. Segundo Wesley, suas principais características são: têm potencial para atender muitas pessoas, são inovadoras, têm ambição de fazer diferença para o mundo, são flexíveis e escalam rápido.

No discurso que fez na conferência Vivatech  em Junho deste ano, Emmanuel Macron disse que a França deve ser uma nação que pensa e evolui como uma startup. A declaração causou frisson  na mídia, mas inspirada por Wesley e Macron proponho a segunda (re)definição de conceito:

Transformação digital é a transformação do governo tradicional em um governo startup.

Transformar digitalmente o governo requer trilhar um caminho. Na minha visão de hoje, agosto de 2017, este caminho passa por confiar, empoderar, aproximar, colaborar, experimentar, redesenhar e escalar. O que mais é necessário para transformar digitalmente o governo? Te convido a construirmos juntos esta estrada. Aguardo seu comentário!