As startups estão na moda. Muita gente falando sobre empresa modo startup, nação startup e até pessoas startups. Parece cool e cada vez mais pessoas querem empreender, fundar uma startup para chamar de sua e tentar a sorte. Sabia que isso pode ser feito no seu próprio emprego? Como transformar a sua sala de trabalho em uma garagem criativa e os seus colegas em sócios da sua própria startup?

Ao princípio: o que caracteriza uma startup? Seria um grupo de pessoas que têm ideias brilhantes, constroem, testam, erram e se não funcionar, iniciam de novo? Quais são (ou deveriam ser) os princípios indispensáveis das startups? A seguir alguns, inspirados em reportagem da revista Exame:

Inovação: é preciso fazer algo diferente do que já existe no seu mercado. Ou se encontra um problema que ninguém atacou de maneira inédita ou melhora de modo disruptivo a solução para aqueles que já foram tratados.
Escalabilidade: o número de beneficiários dos produtos ou soluções podem crescer muito, sem demandar que os recursos financeiros e a necessidade de profissionais subam na mesma proporção.
Potencial: as soluções devem ser concebidas para alcançar um grande número de pessoas.
Ambição: o propósito é se tornar uma organização relevante e que entregue valor real aos envolvidos.
Flexibilidade: mesmo com o propósito de dominar o mundo, elas devem se manter enxutas e ágeis, prontas para mudar suas soluções ou a si próprias sempre que necessário.

Comparar esses princípios com o funcionamento das estruturas governamentais ou das grandes empresas ditas tradicionais resulta em uma resposta automática: são completamente diferentes. Mas será? Pensando em uma instituição pública você pode encontrar similaridade com algumas características das startups. O desenho, a execução e o acompanhamento das políticas públicas devem ser novas, adaptadas à realidade do cidadão, capazes de atender muitas pessoas, voltadas ao propósito público e que entreguem valor para a sociedade. Das cinco características das startups, o Estado está mais longe de ser enxuto e ágil do que as que descrevem a relevância, a escalabilidade e a resolução inteligente dos problemas.

As organizações exponenciais (ExO) operam em busca constante do equilíbrio entre a estabilidade e a criatividade. De um lado, ordem, controle e estabilidade, necessários para manter produtos e serviços bem projetados sendo executados e mantidos com excelência. Do outro, a criatividade, a incerteza e o crescimento, preparando as organizações para mudarem rapidamente quando necessário.

A cultura e o desenho organizacional atuais estimulam os profissionais públicos a escolherem a estabilidade e o controle, talvez resultado de um efeito manada combinado com aversão genética ao risco. Ganha a postura daqueles que deixam de fazer por medo de errar ou de ser encontrado. Por essas e algumas outras, defender o Estado como startup soa como uma loucura para a maioria e como utopia para os malucos. As coisas são muito complexas, e essa reflexão precisa ocorrer sem inocência ou paixão, com muito cuidado para não simplificar as coisas para um lado ou outro.

Mas os dias, as notícias e os exemplos daqui e de fora me convencem que é preciso ser agressivo e puxar com vontade a balança para o lado da criatividade e da inovação, como fazem as startups. Principalmente em ambientes conservadores, esse radicalismo se justifica. E o argumento é simples: manter o que está ruim é suicídio e melhorar pouco não resolve.

Os indutores dessa transformação? As pessoas, como sempre. Mas como fazer com que profissionais estáveis, que atingem o final da carreira com o passar do tempo, arrisquem o seu CPF e a sua reputação para fazer diferente o que todos sempre fizeram igual.

Qual é a motivação para tamanha insensatez?

Recorro ao Maslow, com o olhar do serviço público, como fez a Fabiana aqui. Se o sujeito já está perto ou no fim da carreira, que outro estímulo ele teria para sair do conforto senão o de fazer algo relevante e impactante na vida de muitos,  de poder criar e desenvolver novas ideias e soluções e ainda aprender com isso?

A NetFlix se preparou para o risco de crescer quando estabeleceu como um dos seus pilares culturais o alto alinhamento de propósito e o fraco acoplamento das estruturas. Para isso, o exercício do empoderamento e da autonomia deve ser diário, pois a tendência do crescimento é que ocorra um excesso de centralização, uma propensão à inflexibilidade, o aumento da estrutura organizacional e do poder das pessoas da empresa de decidirem segundo suas percepções e não segundo a dos seus clientes. Te lembra algo?

 

Um dos fatores de sucesso mais importantes para o funcionamento de uma startup é a existência de um ambiente, de um ecossistema, que suporte a ideia e que permita a criação dos produtos e serviços.

No âmbito interno das organizações, é possível construir locus inovadores que funcionem como uma startup?

Grandes empresas privadas já reconheceram que sim, e estão construindo alternativas práticas para a sua transformação digital e pressionando a balança para o lado do progresso e da experimentação. As estratégias são diferentes, seja adquirindo empresas (techquisitions) ou investindo e criando incubadoras ou ambientes próprios de investimentos em inovação. É o caso do Banco do Brasil, que lançou ano passado uma iniciativa de intraempreendedorismo, com o objetivo de incubar projetos internos no ecossistema do Vale do Silício e estimular a mudança de modelo mental dos seus profissionais.

O ambiente propício para o desenvolvimento das startups no ambiente privado tem sido construído com a regulação do Estado. Decretos, Leis e projetos foram criados para estimular os investimentos e a tirar as pedras do caminho, e cito como exemplos o Inovativa Brasil, a nova lei para o desenvolvimento de startups no DF e a Lei Complementar 125/2015. Contudo, há regulações que parecem vir em direção contrária, como a instrução recém editada pela RFB que tributa os dividendos dos investidores anjos.

Para ver prosperar startups, é preciso reconhecer que pessoas importam, ideias importam e o ambiente importa. E para os profissionais públicos que buscam o topo da pirâmide de Maslow, construir o habitat é fundamental. Mas como? Como criar e desenvolver o microclima de inovação e fundar uma startup onde você trabalha? Isso é possível no serviço público?

Ai vão quatro passos iniciais para transformar a sua sala em uma garagem:

Tenha um propósito claro, focado e arrojado do seu departamento ou área, e que esteja vinculado à missão da organização. Para inspiração, o do Spotify: “fornecer para as pessoas acesso a todas as músicas que elas queiram a qualquer tempo, de uma maneira acessível e legal”. Imagina o seu gestor “fornecer ao cliente (ou à sociedade) acesso a tal produto e serviço de modo irrestrito, acessível e legal˜. Ou mesmo “tornar úteis e acessíveis informações que dão suporte ao controle externo” (caso real! :-)).
Monte a todo custo um time de profissionais preparados, comprometidos e alinhados ao propósito. Construa uma equipe de ases, nas palavras da NetFlix. Um grupo pequeno e alinhado, com pouca ou nenhuma hierarquia e altamente empoderado. Times menores aumentam a chance de sinergia e são suficientes, quando focados, para conduzirem o empreendimento. Em outro nível, temos observado nações pequenas que lideram a corrida da revolução digital pela agilidade e pela facilidade de reconhecerem e se alinharem a um propósito comum.
Tenha ideias que transformem e implemente as que resolvam. Concepção com base no cliente e  desenvolvimento ágil, iterativo, incremental. É preciso construir, validar e vender os protótipos sempre que possível, focando nos frutos baixos desde o início. Crie produtos e serviços smart, alinhados ao propósito, passíveis de serem escaláveis e sustentados no futuro.
Consiga o suporte verdadeiro de um cliente e de um anjo. O seu ambiente terá maiores chances de sobreviver ao primeiro abalo se ele estiver sustentado por um interessado e pela alta administração. Eles são essenciais!!! E espere sentado clientes e anjos ideais. Os resultados da sua startup, se realmente relevantes, vão fazer com que eles sejam os primeiros a se transformar e modificar seu modelo mental, além de entenderem o valor da área, do pensamento ágil e do benefício dos produtos.

Observe o exemplo recente do DWP (Departament of Work and Pensions) do Reino Unido, responsável pela política de pensões e bem-estar, uma espécie de Ministério de Trabalho e Previdência no Brasil. Eles descrevem como estão transformando a distribuição de 165 bilhões de libras ($$$) em benefícios e os serviços públicos dos quais 22 milhões de britânicos dependem, a partir de um ambiente e de uma mentalidade digitais. São 10 iniciativas reais e práticas para transformar a essência da instituição, e não somente o que ela faz.

Os dogmas de lá: clareza de propósito, transparência das ações, compartilhamento como regra, pessoas certas na mesma sala, menos processo e mais progresso, autonomia, demonstração, comunidades, pessoas não são recursos, falhe rápido e aprenda e seja forte e vá em frente.

A construção do ambiente e a montagem da sua startup interna está sujeita a muitos riscos, em especial nas organizações onde o modelo mental é avesso à inovação. Sugestões de diversas fontes convergem para esses cuidados básicos:

Não venda somente expectativas ou ideias. Como diz uma grande amiga: “Ideia todo mundo gosta de ter”. Trabalhe por soluções de verdade, cujo resultado possa ser medido. E quando estiverem maduras e testadas, é hora de entrar o time da estabilidade.

Não se esqueça das competências técnicas e de relacionamento da equipe, e nem de desenvolver parcerias verdadeiras com os colegas de outras áreas. A Google ensina que ser gente boa dá muito resultado.
Deixe claro para todos que as ideias e os experimentos podem e vão dar errado. E o quanto antes, melhor! Saber o que não funciona também tem muito valor, desde que você descubra isso rapidamente
Aguenta o tranco e aperte os cintos, porque vai balançar. Resiliência deve ser o seu mantra!

Quanto mais coragem você tiver para construir um ambiente propício e atrativo, maiores serão as chances de exercitar seu espirito empreendedor, conseguir soluções impressionantes para os problemas reais e se orgulhar muito disso. De quebra, você aumenta e muito as suas chances de fazer a diferença e de ser feliz. Vale a pena, hein?!?!