De onde vem a Internet das Coisas? Como impacta a humanidade? A quantas anda no Brasil? Como torná-la mais centrada nas pessoas? Esse post traz uma reflexão sobre essas questões.

“E se os objetos cotidianos ao nosso redor ganhassem vida? E se pudessem sentir nossa presença, nosso foco de atenção, nossas ações, e pudessem responder com informações relevantes sugestões e ações?”
Donald Norman, 2009

A Internet das Coisas (IoT) já é uma realidade. O Gartner estima que 8,4 bilhões de objetos conectados estejam em uso em 2017, com expectativa de 20 bilhões para os próximos três anos. Afirma ainda que 250 milhões de automóveis terão funções inteligentes até 2020. Os autodirigíveis já podem ser encontrados nas ruas de São Francisco, Boston, Pittsburgh, Cingapura, Tóquio, Londres e Gotemburgo, e na Holanda.

O termo ‘Internet of Things’ (IoT) foi proposto em 1999 por Kevin Ashton, do MIT. A ideia original previa a conexão de todos os objetos físicos à Internet, com capacidade de capturar informações por meio de RFID e tecnologias de sensoriamento – as quais os permitiriam observar, identificar e compreender o mundo independentemente das pessoas e suas limitações de tempo, atenção e precisão.

A IoT traz essencialmente a incorporação de informações em objetos de uso comum, interconectados e unicamente identificáveis, em diferentes níveis de escala – de nanochips implantados no corpo a cidades inteligentes. Aqui o NIC.br explica bem a ideia. McLuhan antecipou algo assim em 1964.

“… através de meios elétricos, criamos uma dinâmica pela qual todas as tecnologias anteriores – incluindo cidades – serão traduzidas em sistemas de informação”
Marshall McLuhan, 1964

Mark Weiser chamou de ‘Computação Ubíqua’ a prática de embutir processamento de informações nos objetos e ambientes em toda parte. Ele acreditava em uma “tecnologia calma”, aquela que “desaparece” ou torna-se imperceptível de tão integrada ao uso cotidiano, como a eletricidade e a escrita.

As inovações que surgem no âmbito da IoT têm potencial para oferecer uma infinidade de benefícios – técnicos, sociais, econômicos, ambientais. Os efeitos nas áreas de urbanismo, saúde, comunicação, segurança, comodidade e sustentabilidade são significativos.

As aplicações são tantas quantas forem possíveis de se imaginar ao associar informações e capacidade de processamento e de ação dinâmica a objetos.

Aplicações da Internet das Coisas (adaptado de Postscapes)

Casas com controle automatizado de iluminação, segurança, irrigação e dispositivos eletrônicos já são comuns. A tecnologia caminha agora em direção à integração do ecossistema residencial aos demais com os quais interage, incluindo supermercados, hospitais (soluções de acompanhamento de idosos, por exemplo), delegacias.

Como essas tecnologias impactam as pessoas?

Um caso emblemático recente do potencial desse impacto foi a prisão de um homem nos EUA por agressão e ameaça de morte à namorada, após o Echo Look, aparelho da Amazon operado pelo serviço de inteligência artificial Alexa, chamar a polícia por comando de voz.

Objetos passam a ser agentes, a perceber estímulos do ambiente, produzir informações e interagir com outros objetos e com seres humanos. Mas a forma como respondem parte de premissas e motivações de quem os idealizou. É preciso investigar até que ponto essas respostas “inteligentes” e decisões “independentes” dos objetos estão de acordo com o que desejam os seres humanos que os utilizam.

“Mapear as necessidades e vontades de pessoas reais em qualquer situação está longe de ser tarefa óbvia”
Adam Greenfield, 2006

O grupo de especialistas da Comissão Europeia (IoT Expert Group) identificou seis questões éticas fundamentais no âmbito da IoT: justiça social (combate à exclusão digital e de conhecimentos); confiabilidade (garantia de privacidade e segurança, proteção de dados); clareza sobre contextos (responsabilidades dos atores no ecossistema, privado versus público), clareza sobre metáforas (conveniência versus perigos das ‘coisas inteligentes’), clareza sobre agência de objetos (contrato entre pessoas e objetos) e autonomia dos indivíduos (consentimento informado sobre funcionalidades e ações dos objetos).

No excelente filme “Her”, um Blade Runner moderno, Spike Jonze retrata um extremo, onde as relações no futuro traduzem o amor em tempos de dados e algoritmos.

Qual a relação da Internet das Coisas com a construção de uma República Digital?

Greenfield destaca o papel dos agentes reguladores no contexto da IoT, tendo em vista seu claro potencial de afetar questões como a privacidade e o uso do espaço público e de comprometer o exercício de liberdades civis. As pessoas estão expostas às forças de mercado capazes de promover implementações perigosas, dispendiosas ou inúteis.

A preocupação com a governança da internet, traduzida pela capacidade de definir modelos de funcionamento da rede, torna-se fundamental para garantir o desenvolvimento sustentável da IoT e o atendimento pleno aos interesses individuais e sociais.

Como definiu Márcio Braz, “governança tem objetivo mais amplo: assegurar a transparência e a participação do cidadão nas decisões do Estado de forma a melhorar a vida da sociedade”.

A IoT tem sido tratada como tema prioritário pelo setor público de diversos países, especialmente europeus e asiáticos, com programas de governo dedicados a identificar impactos e potenciais oportunidades trazidas pelas inovações.

Segurança e privacidade estão entre os pontos críticos. Estamos falando em objetos com informação embutida, além da capacidade de sentir e agir.

Dados constituem a essência da Internet das Coisas. Debates sobre privacidade e direito aos dados no âmbito da IoT têm sido frequentes nos mais diversos fóruns. Surgem questões como: a quem caberá decidir sobre que dados serão abertos, restritos ou sigilosos – ao próprio usuário, ao governo, às empresas proprietárias das soluções?

Até que ponto a infraestrutura das cidades inteligentes garantirá aos cidadãos o acesso e o direito aos dados por eles gerados nas atividades cotidianas? Informações de prontuário médico, por exemplo, poderão ser interligadas em rede e utilizadas para as mais variadas finalidades?

E quanto ao “direito a ser esquecido” em um cenário de bilhões de objetos trocando dados relativos ao indivíduo? Não é novidade que nossos passos estão sendo monitorados em nome de interesses comerciais. Passei recentemente pela experiência de ter um dos perfis digitais mais cobiçados: o de gestante. Vejam o que diz essa matéria.

Além da segurança da informação, e considerando que os objetos passam a ser agentes, que atuam independentemente de intervenção humana, a proteção contra danos físicos passa a ser um fator relevante. Imaginem ataques cibernéticos que ameacem automóveis inteligentes ou chips implantados no corpo humano?

“Se a computação pervasiva chegar sem os adequados princípios para guiá-la, irá rapidamente resultar em complexidade incoerente, ingerível e maligna”
Lucas, Balay e McManus, Trillions, 2012

Como anda a implementação da Internet das Coisas no Brasil?

Para o pleno funcionamento da IoT, é preciso superar questões de infraestrutura, políticas e éticas. Apenas para ilustrar, seguem alguns exemplos. O cenário é bem mais amplo e complexo.

Infraestrutura tecnológica

Um dos maiores desafios a serem enfrentados é a migração de versão do protocolo IP, de IPv4 para IPv6, para garantir que os objetos conectados tenham endereçamento único. Segundo as estatísticas do Google, mais de 80% dos dispositivos no mundo ainda utilizam IPv4, que já está se esgotando. A migração definitiva para IPv6 é cada vez mais urgente, como explica Vint Cerf, um dos criadores da Internet.

De acordo com o ranking da Akamai, o Brasil ocupa atualmente a 9º posição, com 13% de adoção de IPv6. A Bélgica lidera a lista, com 38%, seguida da Grécia com 25% e dos Estados Unidos, com 22%. A boa notícia é que, no primeiro trimestre de 2017, o Brasil foi o que mais cresceu entre os dez países que mais adotam IPv6.

Outro ponto a ser considerado é a universalização do acesso à Internet, necessário para a operacionalização da IoT. Segundo o IBGE, o Brasil atingiu o índice de 58% de acesso pela população, alavancado especialmente pelos celulares. Mas, em relação à cobertura de rede, o país ainda ocupa a 78º posição, de 202. O IPEA aponta lacunas de mercado e de acesso, ao indicar que até 11,6 milhões de domicílios no país poderiam pagar pelo acesso à banda larga fixa ou móvel, mas não contam com a disponibilidade local do serviço.

Esfera política

O governo brasileiro deu um importante passo com a proposição do “Plano Nacional de Internet das Coisas” e a formação de um consórcio dedicado ao tema. No último dia 6 de junho, o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) lançou consulta pública para construir o Mapa Brasileiro de IoT, que irá subsidiar a elaboração do Plano. A ideia é identificar empresas e instituições científicas e tecnológicas (ICTs) com competências técnicas e de pesquisa, além da oferta de produtos, serviços e soluções de IoT no Brasil.

As 2288 contribuições da sociedade à consulta foram submetidas à Câmara de Internet das Coisas, que conta com a participação de 43 entidades, envolvendo governo, academia e iniciativa privada.

O estudo ocorrerá em três fases, que incluem diagnóstico, priorização de setores para investimentos e formulação de ações para fomentar o mercado de IoT no país.

Privacidade e segurança

Tramita na Câmara um projeto de lei – PL 5276/16 – que trata da proteção de dados pessoais, considerando questões como o consentimento informado, princípios da finalidade, necessidade e proporcionalidade, e anonimização.

Internet das pessoas

A velocidade com a qual a tecnologia se difunde é normalmente maior do que a possibilidade de previsão de seus impactos, sejam positivos ou negativos. E, dada a infinidade de aplicações e a abrangência da IoT, os efeitos negativos são temerários, considerando que o processo de implantação tem sido conduzido, em grande medida, por empresas privadas, com valores comerciais ou nem sempre coincidentes com os da sociedade.

Mas eu não me alinho ao discurso da distopia. Acredito que devemos assumir o protagonismo das discussões que envolvem inovações e interesses públicos, para melhor aproveitar o potencial da tecnologia de aumentar as capacidades humanas. A IoT tem ampla repercussão em muitos dos processos que caracterizam a vida cotidiana, portanto, é primordial que seu desenvolvimento seja fundamentado em estratégias orientadas a aspectos humanos e sociais.

Concluo essa reflexão trazendo o senso de propósito, que já foi tema de posts da Fabiana Ruas e do Wesley Vaz, como ingrediente necessário para a construção de uma República Digital. Como profissionais públicos e cidadãos, devemos nos conscientizar sobre nosso papel de fazer com que essas tecnologias sirvam ao bem comum, e a Internet das Coisas seja, de fato, para as pessoas.


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