Há fortes evidências de que o mindset dos profissionais públicos não é exatamente o mais apropriado para a inovação, experimentação e o uso inteligente de tecnologia para fazer melhor o que se deve e deixar de fazer o que nada agrega. Mas como é possível convencer os céticos? Como estar certo de que a transformação dos serviços públicos utilizando tecnologia é a solução para a construção rápida e eficaz para construir uma realidade melhor? Vou com a maioria: a saída é pela educação, a aprender pelo exemplo é sempre uma boa opção. Neste post, vou tentar te convencer que que os modelos mentais das pessoas estão comprovadamente mudando para aceitarem e se adaptarem à nova realidade de abundância digital que vivemos. E me desafio a ilustrar isso com fatos ocorridos somente neste mês, junho de 2016.

O problema da transformação digital do Estado não é de tecnologia, mas de mindset. Ser digital by default é, encarar naturalmente alterações no modo de se relacionar, de fazer negócios e de ser capaz de (re)criar novos modelos mentais.

Mindset é sinônimo de modelo mental predominante. Isso influencia tudo, desde o tom de voz em uma discussão com amigos por futebol até o entendimento pessoal da realidade que vivemos. Por ser pessoal e resultado de uma série de episódios individuais, concordemos que mudar modelos mentais é muito, mas muito difícil.

Mas adivinhem só. Saibam que isso tem acontecido cada vez mais, por pessoas que têm se rendido aos resultados da nova economia. Por aqui, destacou-se recentemente uma decisão do TCU, que afirmou que a Administração Pública pode contratar Uber e congêneres. O acórdão analisou uma contratação do Ministério do Planejamento e concluiu que houve erro do órgão ao não incluir o transporte individual privado em pregão que contratou empresa de taxi para prestar serviço, proibindo inclusive a prorrogação do contrato vigente (para mais informações, Acórdão 1223/2017-Plenário, Min. Benjamim Zymler). A decisão é relevante por representar mais um passo na aceitação pública e jurídica dos modelos de serviços suportados por plataforma, que até pouco tempo sequer existiam e que, por isso, não compunham qualquer modelo mental do legislador ou do administrador público. De decisões como essa surgem os elementos formais que inauguram o novo normal.

E a decisão do CNJ, que autorizou formalmente o uso do Whatsapp para intimações judiciais? Mais um exemplo de que o modelo mental ”coletivo” vem mudando a partir da interpretação das bases normativas vigentes frente à realidade em que se vive. Está cada vez mais difícil ser mais realista que o Rei!

Falando em Rei, observe o discurso feito pela rainha da Inglaterra, uma senhorinha de 91 anos que apertou a mão de uma dúzia de presidentes americanos e apresentou no parlamento britânico um plano para a construção de novas regras de proteção de dados. O plano propõe que pessoas com menos de 18 anos tenham o direito de solicitar às redes sociais que apaguem quaisquer dados pessoais que elas tiverem compartilhado. O documento proposto consolida as prioridades britânicas, entre as quais a garantia das regras de proteção de dados fornecendo aos indivíduos poder para terem maior controle sobre seus dados pessoais.

Mindset é coisa que não se muda!?! Pode até ser! Mas cabe às lideranças adaptarem suas decisões aos interesses das organizações que representam no atual cenário.

Será que o mindset da rainha mudou em relação ao uso das redes sociais? Não saberemos se Lady Elisabeth tem ou não um conta no FB ou usa o Whatsapp para ver as fotos dos bisnetos. É bem provável que ela não se insira entre os aficionados por tecnologia. Mas como chefe de Estado, reconhecer junto ao Parlamento que um novo regramento precisa ser construído para a evolução do país parece ter valor. Mesmo os modelos mentais mais tradicionais foram de vanguarda algum dia.

Já que citei o Reino Unido, me obrigo a mencionar o seu contraponto histórico. Na França, o recém eleito presidente Macron, em discurso recente (em inglês e em Paris!), me impressionou ao defender que a França funcione como uma nação startup, que quer um país que pensa e age como as empresas empreendedoras da nova Era.

Além do discurso, Emmanuel lançou o programa French Tech Visa, que dá permissão para imigrantes empreendedores e profissionais de tecnologia de todo o mundo se estabelecerem na França, por um período de até quatro anos.

Palavras do Mounsieur President: “We want the pioneers, the innovators, the entrepreneurs of the whole world to come to France and work with us on green technologies, food technologies, artificial intelligence, on all the possible innovation.”

Com um semblante muito convicto, o discurso não parava de lacrar: a abertura é o caminho correto, e o governo deve ser visto e entendido como uma plataforma, e não como uma restrição. E finalizou, afirmando que a nova França é a empreendedora.

Ok. Estamos diante de um discurso de um presidente eleito, as palavras são fortes e inspiradoras mas há diversas críticas a esse modo de pensar. Nessa matéria, acadêmicos apresentam uma série de ponderações negativas sobre o paradigma do cidadão consumidor, do estímulo ao uso de informações e tecnologia para a gestão de políticas públicas e da utilização de modelos de gestão de empresas privadas aplicadas ao Estado. Em todas as respostas, pude notar que os dilemas apresentados reconheciam o valor das novas formas de pensar sempre seguidas de um “mas”, “entretanto” ou “contudo”. Em suma, diziam que o uso da tecnologia não é ruim, mas que direitos e modelos de representação devem ser mantidos, sob pena de retrocessos sociais irreversíveis. Pra mim, essa discussão exemplifica que ainda estamos (talvez sempre estivemos) em um momento de transformação de modelos mentais que precisam convergir. E isso ganha força na França, um país que exalta suas conquistas sociais há séculos.

De Paris para João Pessoa. Tive a honra de estar no Hackfest 2017 contra a corrupção, organizado sob a liderança do Ministério Público do Estado da Paraíba e com a participação de vários órgãos públicos. Pude ver ao vivo o trabalho abnegado de todos os profissionais públicos que organizaram o evento, a quem parabenizo enfaticamente em nome do Promotor Octavio Neto e do professor da UFCG Nazareno Andrade (salva de palmas!). O evento levou até a Paraíba algumas personalidades nacionais, a sociedade civil, profissionais, formadores de opinião, educadores e alunos para discutir alternativas e propor ideias inovadoras para a prevenção e o combate à corrupção no Brasil.

O ponto alto do evento foi, sem dúvida, a maratona de programação, desenhada para estimular equipes a idealizarem e criarem soluções tecnológicas que resolvessem problemas práticos sobre o tema. O engajamento e a empolgação de todos os envolvidos foi bonito de assistir, e me fez estar ainda mais certo de que o cidadão não pode ser visto como cliente do Estado. Somos sócios!!! E quando descobrimos isso, coisas boas acontecem!! Enquanto sócios, entendemos rápido que o “lucro” pode ser diretamente proporcional ao envolvimento nos problemas e nas potenciais soluções.

No mês e na terra do São João, lembremos que é o olho do dono que engorda o boi.

Durante o evento, tive a satisfação de compartilhar minhas ideias em um painel com dois personagens inspiradores e que representam projetos muito relevantes e realmente colaborativos no país: Irio Musskopf, do Serenata de Amor e Stephan Garcia, do Code for Brazil. A minha principal mensagem reafirmou a necessidade de o Estado evoluir e demonstrar que a transformação digital de que todos precisamos também precisa ocorrer dentro do próprio Estado, e rápido.

De um Ministro de Estado da Estônia: “Nos anos 80, os jovens sonhavam ser astros de rock. Hoje, sonham ser empreendedores”. Eu sonhava mesmo era ser jogador de futebol! Mas o tempo passa, e aqueles meninos de João Pessoa pareciam decididos a seguirem por outro caminho, a terem boas ideias e a trabalharem por elas. Pude ver conquistas obtidas em poucas horas, como a construção de painéis de visualização para os gastos do Estado da Paraíba, a obtenção inédita de informações ainda não disponíveis em portais “públicos” (captcha “inquebráveis”) e a prototipação de aplicativos gamificados para acompanhamento do desempenho e de gastos de parlamentares: “Cartola Parlamentar” e o “Vidinha de Balada”, nessa ordem. O resultado final do concurso? Só em agosto.

Mas não acho que isso tenha sido o mais importante dos resultados. Nem mesmo a indicação da ONU, divulgada no último 28/6 ao prêmio na área de inovação (palmas de novo!). O modelo mental que se desejava criar em João Pessoa era moldado na utilidade da transformação digital e da participação social como instrumento para o combate à fraude e à corrupção e ao estímulo à cidadania. Representava a tentativa de convencer de que é possível fazer coisas relevantes e impactantes, de que há outras pessoas que querem o mesmo e que estão dispostas a formar uma comunidade que pode mudar perspectivas e, obviamente, os seus próprios mindsets.

E qual será mesmo o resultado prático de um Hackfest, de uma nova decisão do TCU, de um discurso presidencial? Para a cidadania e para a reconstrução de uma realidade, não sou capaz de medir objetivamente. Mas para ir construindo um novo mindset, individual e coletivo, consigo imaginar o quanto vale. Vale o futuro!