Quando uma coisa muito inusitada está prestes a acontecer, sempre dizemos que vai chover! E há duas semanas isso aconteceu, lá na cidade de Cambridge, no campus da prestigiosa Universidade de Harvard. Mark Zuckerberg, um dos muitos ex-alunos famosos da Grimson, se graduou. Tá certo que não chegou a ser aaaqueeeela graduação, pois ele não terminou os créditos, como implorou sua mãe há um tempo atrás. Foi uma graduação de honra, daquelas em que se entrega um diploma honoris causa e se permite discursar gente muito famosa. Mas nesse caso, quem se importa? Se o homenageado não se importou, não vai ser a escola que ele abandonou que vai, não é?

O discurso do fujão e fundador do Facebook vale a pena ser lido e assistido. É divertido, emocionante e cheio de mensagens [mesmo se escrito por um time de marketing do FB!]. Me impressionou o fato de sua esposa e pais estarem sentados no que parecia ser a primeira fileira da plateia, protegidos por uma capa de chuva de plástico e sob a chuva chata que caia. Sem vira-latismo aqui, tá?!: imaginei como seria o tratamento dado à família se o dono e fundador de uma das maiores empresas do planeta estivesse discursando por aqui. Por lá, parece que foi o tratamento dado, igualmente, a todas as famílias dos formandos naquele dia. Naquele dia, Mark tinha a palavra, mas era somente mais um.

A mensagem principal do seu discurso era o senso de propósito. E o dele, segundo o próprio, era o de conectar pessoas e histórias. Não vou entrar no mérito do propósito que ele defende, mas vou propor uma reflexão sobre o nosso senso de propósito enquanto profissionais públicos. O quanto conseguimos reconhecer as razões verdadeiras para fazer aquilo que precisamos e queremos no campo profissional e no serviço público?

Nós, profissionais que trabalhamos para o Estado (ou seria para a sociedade?), precisamos encontrar o propósito real, material, mensurável no trabalho que realizo? A minha atividade ajuda a mudar para melhor a realidade da minha organização, da política pública, das pessoas? É preciso, primeiramente, que você responda sim a essa pergunta. Senão o propósito se confundirá com as atividades que se justificam por elas mesmas, que não entregam benefícios senão os da burocracia.

Na Califórnia não choveu no dia 12/06/2005. Nessa data foi realizado o commencement speech do Steve Jobs para a turma da Universidade de Stanford, outra grande do mundo. [Aliás, se você tem algum juízo na vida, não pode deixar de assistir esse discurso e a apresentação de lançamento da primeira versão do iPhone, há 10 anos atrás].

Em resumo, o Jobs falou a experiência de ter sido adotado por uma família que queria uma menina, da vida difícil da família para pagar seus estudos e de ter decidido largar matérias obrigatórias para fazer outras como caligrafia. Ele reforça a necessidade de acreditar em algo e acreditar acima de tudo, mesmo depois de ter sido demitido da própria empresa por pessoas em quem ele confiou. A principal mensagem é que, quanto mais você acredita em algo, mais forte e resiliente você fica. E ele fecha o memorável discurso sugerindo que façamos o que acreditamos e o que realmente gostamos de fazer.

Voltamos à nossa reflexão. No atual Estado em que trabalhamos, dificilmente seremos demitidos e, talvez por isso, a maioria não liga para o fato de a empresa não ser nossa. Na verdade, no discurso o Estado é de todo mundo e, por isso mesmo, não deveria ser de ninguém. Será que realmente acreditamos no que estamos fazendo? E quando aparecem os tropeços comuns do dia a dia, você acorda melhor ou pior? Alguma vez você encontrou satisfação genuína em fazer seu trabalho enquanto profissional público ou sempre foi simplesmente uma questão de obrigação? Crença, resiliência e paixão pelo que faz parecem ser sentimentos de exceção no serviço público.

Ai vem o Elon Musk (aquele dono da Tesla, SpaceX e que quer fundar uma cidade em Marte) e declara, em várias entrevistas, o que ele considera a sua principal virtude enquanto empreendedor desde as épocas do PayPal: trabalhar super hard (fiel ao termo usado por ele!) e fazer coisas que ninguém fez ainda. Ele é conhecido pelas doses cavalares de trabalho sem parar, e declara isso: “seja muito rigoroso consigo mesmo antes de ser com quem trabalha contigo”. Dormir nos armazéns de produção ou na sala dos programadores não parece ser incomum na vida do rapaz.

E nós, no serviço público? Somos super produtivos e inovadores, ansiosos por fazer algo que ninguém fez com muita produtividade e dedicação? Como, se a recompensa para isso quase sempre não existe ou, não raramente, as punições por falhar são um repelente natural à inovação. A Fabiana falou de motivação no seu último post, e descobrimos que dinheiro é o que possui maior impacto inicial e o menor com o passar do tempo. Ela continua instigando os leitores a descobrirem o que de fato os motiva, sabendo que a fórmula é individual, diferente para cada pessoa. Mas sugere também que o conjunto de desejos intrínsecos é o mesmo, não importa se profissional da iniciativa privada, terceiro setor ou da administração pública.

Os nossos três protagonistas de hoje são pessoas que, queiram ou não, tiveram papel importante na criação e transformação de negócios, mercados e produtos. E eles falam, cada um com uma ênfase, da importância do propósito, da crença e do trabalho.

Direto e reto. Ninguém pode estar satisfeito com os resultados que o Estado brasileiro entrega para todos nós, cidadãos. A realidade dos jornais já não bate para entrar, e demonstra que as coisas podem piorar dia após dia.

Aspas para minha amiga Flávia Lacerda: “Temos que confiar em nossa capacidade de mudar o ambiente, pois o serviço público somos nós, as pessoas que nele trabalham!”

Não é minha intenção simular a nossa realidade e calibrar as nossas competências com as mensagens de Mark, Jobs e Musk. Não sou tão doido!! Por certo nos faltarão várias dessas virtudes e recursos durante a nossa carreira e, quanto a isso, penso que o melhor é reconhecer o que temos e seguir em frente, com as nossas próprias qualidades e defeitos. E é bom reconhecer logo que o período de seca se prolongará por um longo tempo e que, durante isso, é preciso se preparar para sobreviver a ele e, ainda assim, estar pronto e disposto para plantar quando a primeira chuva chegar. Ou isso, ou a extinção nos acolherá sem muita resistência.

Deixei para o fim a melhor parte, como um prêmio para os que chegaram até aqui. Ouso interpretar  as principais mensagens nos verbos sonhar, acreditar e ralar. E mais. Quase 100% das pessoas que hoje estão em um cargo público tiveram que exercitar ao máximo essas três ações para serem aprovados em um concurso público.

Lembre-se, como escreveu a Cristiana Duran em uma observação brilhante, que a “aprovação em um concurso público é um ato de admissão, não de vacância”. Uma vez conseguida a entrada, um estranho fenômeno social amplamente descrito pelos cursinhos ocorre: as pessoas decidem descansar, dedicando-se à vida profissional bem menos do que se dedicou para de entrar nela. Sem ofensas hein?! Cada um é grandinho faz o que acha que deve fazer e o que pensa ser o certo. Mas tive que fazer essa provocação pra mostrar que combinar propósito, crença e trabalho a um resultado transformador não é tão estranho para você, caro ex ou atual concurseiro(a).

Se não for pela nossa ação, como profissionais do Estado, de onde virá a força e a responsabilidade por transformar a realidade? Eu sou otimista, até porque os bons exemplos estão mais conhecidos e aparentes. Acho que, depois do tsunami, vai chover no planalto.