Não há dúvida de que precisamos inovar nas soluções propostas pelo Estado para que alcancemos a tão sonhada república digital. Também não há dúvida de que é primordial o engajamento, não apenas mas principalmente, dos profissionais do setor público para que soluções inovadoras e disruptivas promovam a necessária transformação no Estado. Por fim, não existe questionamento sobre motivação anteceder engajamento. Talvez a questão em aberto para fechar esta equação seja: o que move o profissional público? 

Você conhece a empresa Gravity Payments? Não? Também não conhecia até que o Ronaldo Corrêa deixou um comentário na página do Facebook da Republica.Digital.

Fonte: https://www.extremetech.com/

A Gravity Payments é uma empresa de processamento de cartões de crédito cujo CEO, Dan Price, acordou bem-humorado dia desses e decidiu aumentar o salário mínimo da empresa para 70.000 dólares por ano, algo em torno de 18.000 reais por mês. Disse que a motivação para tomar esta decisão foi ouvir de uma amiga, que não era funcionária da empresa, que não conseguia pagar pelo aluguel e pelo empréstimo estudantil com um salário de 40.000 dólares por ano. Ele chegou à conclusão que, dos seus 120 funcionários, vários estariam passando pelo mesmo problema e por isso, e talvez por alguma publicidade gratuita, decidiu cortar parte do seu salário para viabilizar o aumento do salário mínimo da empresa. Seis meses depois do feito, ganhou um Tesla, model S, dos funcionários agradecidos.

O comentário do Ronaldo questionava se esta atitude do CEO energiza as pessoas. Pois bem, vejamos.

Quando tomamos a decisão de estudar para um concurso público, o que nos motiva? Analisemos um caso bem conhecido por mim: o meu. O TCU é o meu sétimo emprego. Os outros seis foram na iniciativa privada. Quando a Pietra, meu bebê de 12 anos, tinha três meses de idade, me caiu a ficha de que, em um mês, eu teria que voltar a trabalhar. Pensei em sair do emprego, mas não tive apoio. O pai dela me desanimou analisando as contas mensais e a minha mãe foi bem direta: “Não criei filha para depender de marido. Se vira!” Aí, como todo bom brasiliense, me rendi ao concurso público. O TCU era uma excelente oportunidade de trabalhar menos (sete horas diárias versus oito horas da iniciativa privada) ganhando quase o dobro do que ganhava. Pronto, foi assim que decidi. Um detalhe: só trabalhei as sete horas diárias nos primeiros quatro meses. Há mais de 10 anos trabalho bem mais do que isso.

Fonte: www.mercadopopular.org

Existem histórias mais românticas, eu imagino, mas se tem algo que o serviço público oferece aos seus profissionais é um bom salário (veja a tabela acima). E aí eu pergunto aos senhores, o bom salário (sei que nem sempre tão bom quanto no TCU mas sempre acima da média do mercado) é suficiente para manter os profissionais (Wesley me proibiu de chamar de servidor) públicos felizes, motivados e energizados? Até acredito que no primeiro momento sim. Por um tempo, as pessoas trabalham motivadas por terem conseguido salários maiores e a sonhada estabilidade.

No entanto, aumento de salário é “coisa que dá e passa”. Rapidamente seu orçamento se acomoda ao novo salário, você não pensa no salário diariamente ao acordar, e nem nas vantagens que o emprego te oferece.

Voltemos à Gravity Payments e ao CEO que estabeleceu um salário mínimo bem acima da média do mercado. Qual foi o resultado da atitude do CEO? Grandes salários são suficientes para manter profissionais motivados? Segundo este artigo da Forbes, o primeiro resultado foi um desvio de foco dos funcionários para lidar com a enxurrada de mensagens, entrevistas e visitas que a empresa passou a ter que responder depois que a imprensa divulgou amplamente a notícia. Além disso, alguns clientes abandonaram a empresa porque passaram a temer aumento nos preços dos serviços ou porque consideraram a decisão uma atitude política do CEO. Consequências provavelmente não previstas por Dan Price, quando ele decidiu aumentar os salários. No entanto, a pior consequência ainda estava por vir. Profissionais seniores da empresa resolveram abandonar o barco porque se sentiram menos prestigiados com a nova política. A seguir, a declaração de uma dessas pessoas:

He gave raises to people who have the least skills and are the least equipped to do the job, and the ones who were taking on the most didn’t get much of a bump.

Agora, imagine o que sentem os profissionais públicos engajados ao olharem para o lado e encontrarem colegas que não têm o mesmo nível de entrega e recebem o mesmo salário? Certamente sentem-se injustiçados como a ex-funcionária da Gravity Payments. Sentir-se injustiçado no trabalho não aumenta engajamento. Voltando ao Ronaldo, nosso leitor que questionou se aumentar o salário mínimo pago aos funcionários energiza as pessoas. Minha conclusão: pode aumentar o nível de energia sim, inicialmente, mas grandes salários não mantêm pessoas energizadas para sempre.

Mas se não podemos contar apenas com os bons salários da administração pública para manter os profissionais energizados, que recursos temos? Neste ponto precisamos dividir o público deste blog em dois:


Grupo 1: pessoas que acreditam que não é possível existir um profissional público motivado.

Grupo 2: pessoas que acreditam que o fato de ser profissional público não impede uma pessoa de ser motivada.


Se você pertence ao Grupo 1, foi bom tê-lo aqui. Voltamos a conversar daqui a duas semanas, ok?

Se você pertence ao Grupo 2, sigamos em frente.

No meu último post, conversamos sobre o que move um profissional a levantar-se da cama e fazer um bom trabalho. E o que move um profissional da administração pública? É diferente do que move qualquer profissional da iniciativa privada? Te convido então a um jogo!

 


Teste: o que move o profissional público?

(Antes de começar, se quiser conhecer um pouco mais os fatores que movem um profissional, siga este link. Preparei uma breve explicação sobre cada um.)

Analise as dez perguntas abaixo. Para cada resposta afirmativa, anote 1 ponto.

Pergunta 1: Será que os profissionais públicos sentem necessidade de aprovação?

Pergunta 2: Será que os profissionais públicos sentem necessidade de pensar?

Pergunta 3: Será que os profissionais públicos sentem necessidade de compartilhar valores com o grupo?

Pergunta 4: Será que os profissionais públicos gostam de ser indivíduos independentes?

Pergunta 5: Será que os profissionais públicos gostam de sentir-se competentes?

Pergunta 6: Será que os profissionais públicos têm necessidade de compatibilizar ideais de vida com o trabalho?

Pergunta 7: Será que profissionais públicos sentem necessidade de um ambiente estável?

Pergunta 8: Será que profissionais públicos têm necessidade de influenciar?

Pergunta 9: Será que os profissionais públicos têm necessidade de contato social?

Pergunta 10: Será que os profissionais públicos sentem necessidade de prestígio social?

Analise sua resposta:

10 a 7: você, bem como eu, acredita que o que move o profissional público é o que move qualquer profissional.

6 a 4: você é uma pessoa um pouco mais desconfiada sobre o que realmente faz um profissional público levantar-se da cama. Será dinheiro?

3 a 1: aqui, talvez, você já esteja no time que acredita que profissional público não gosta de trabalhar, inclusive essa que vos fala.

0: pronto, você acredita que somos de outro planeta e movidos a forças extraterrestres.


Em 2015, surgiu na minha timeline do Facebook, o artigo do blog Mercado Popular intitulado “A elite de servidores na República dos Concurseiros”. Discordo da linha de pensamento do blog, mas não posso deixar de concordar que sim, o Brasil se transformou na república dos concurseiros, onde o setor público é mais atrativo do que o privado. Uma das minhas irmãs, também formada em Computação pela UFMG, mora nos EUA, é cidadã americana e presta serviço há anos para o governo americano por meio de uma empresa de consultoria. Durante todo esse tempo ela nunca cogitou se tornar uma profissional pública. O motivo é simples: ela ganharia menos e não trabalharia em projetos mais estratégicos do que com os quais já trabalha.

Tenho quase sempre um olhar positivo das situações, mas o Brasil ter se transformado na república dos concurseiros é um fato difícil de se extrair lado positivo. No entanto, preciso destacar um. Os bons salários atraem pessoas capacitadas. Se sonhamos com uma república digital, vai ser com os concurseiros bem sucedidos da atual república que precisaremos contar. Portanto, ficam aqui my two cents para a construção dessa nova república.

Se você é gerente de times de profissionais públicos, entenda que os dez motivadores têm pesos diferentes para cada pessoa e, para aumentar a produtividade da sua equipe, é bom que você aprenda o que traz satisfação para cada integrante do seu time e mudar o ambiente profissional, ou pelo menos tentar, para que consiga tirar o máximo de cada um.

Se você é um dos profissionais públicos não motivados, convido-o a analisar quais motivadores te deixam mais energizados e tentar descobrir que características no ambiente do seu time fazem com que eles não sejam potencializados. A partir desta descoberta, tente mudar o ambiente ou tente mudar de ambiente. Contamos com sua energia para construir a república digital e não podemos desperdiçá-la. Vamos nessa?