As relações de trabalho e a previdência estão entre os temas polêmicos mais debatidos nos últimos meses. A mudança imposta pela Lei da Terceirização (Lei 13.429/2017) e a reforma trabalhista (aprovada na Câmara) provocam reflexões sobre o futuro dos trabalhadores, mas também sobre o futuro do trabalho.

A classe empresarial defende a #reformatrabalhista apontando como necessária a adaptação das leis às novas realidades do trabalho, como o home-office e  o trabalho intermitente. Já grande parte do movimento sindical aponta a precarização das relações do trabalho e a perda de direitos do trabalhador.

Independentemente das acaloradas discussões em curso, há mudanças ainda mais significativas chegando e que afetarão sobremaneira o futuro do trabalho. O renascimento da robótica – agora turbinada por uma explosão de inovações decorrente da aplicação combinada de inteligência artificial, big data e computação em nuvem – vai dar o que falar. E, lembremos que, para fins de emprego, não estamos falando apenas de robôs em sentido estrito, mas também de softwares capazes de substituir seres humanos na execução de tarefas.

Nos países mais avançados, mais e mais editoriais, eventos e estudos discutem os impactos da robótica e da informatização sobre a geração de empregos. Quais setores serão mais afetados? Haverá apenas substituição de empregos de menor qualificação por novas funções de maior qualificação ou teremos desemprego em massa? Quais políticas públicas precisam ser implantadas já para preparar crianças e reciclar adultos?

Embora existam estudos e posições divergentes acerca do aumento do desemprego em função do avanço digital, mudanças vão ocorrer. Artigo recente da Forbes descreveu como está feio o cenário do varejo nos EUA, com muitos gigantes fechando as portas no “país dos shoppings”. Só no artigo, são citados o fechamento de aproximadamente 2 mil lojas de empresas tradicionais como Crocs, Macys e Radio Shack. Um analista comentou assim o caso da Radio Shack, que vende eletrônicos:

“No consumer electronics store sells a differentiated product,” Michael Pachter, research analyst at Wedbush Securities, told the Los Angeles Times. “There’s nothing they sell that you need to go to their store to get.” (“Não há nada que eles vendam que demande que você vá a uma loja para conseguir”)

Imagem: Robert S

Ainda cético quanto aos impactos da vida digital? Você sabia que há gente investigando se os suicídios e desafios provocados pelo #BaleiaAzul teriam sido conduzidos por #chatbots (softwares de chat com recursos de IA). Já imaginou que médicos podem vir a ser substituídos por robôs? Não? Mas os médicos estão sim discutindo isso. Veja esse post do Dr. Diógenes Silva, para o site Academia Médica. Ainda não está convencido? Então que tal ver essa reportagem do respeitado The Guardian publicada há 3 dias sobre a ascenção dos robôs do sexo (Rise of the Sex Robots). Segure o queixo.

E o seu emprego? Qual a probabilidade de você perder seu contracheque para um descendente do R2-D2 nos próximos 20 anos? O estudo  “The Future of Employment“, publicado por pesquisadores de Oxford, fez os cálculos para diversas profissões, baseados em análises que consideram a existência de gargalos para sua informatização em três variáveis: percepção e manipulação (necessidade de destreza), inteligência criativa (originalidade, belas artes) e inteligência social (percepção social, negociação, persuasão, empatia). Os resultados foram importados pelo site ReplacedByRobot que oferece uma pesquisa que vai surpreender muita gente!

Imagem: Reuters @ DailyMail.Co.Uk

Eu mesmo já sabia que minha profissão de auditor corre riscos, mas não imaginava que a probabilidade era de 95%!!! (Daí lembrei que outro dia conheci o livro “Ninguém gosta de auditores“. Se der pra robotizar algo, vão priorizar os auditores, certamente!). Veja algumas outras profissões e a probabilidade de serem “robotizadas”!

  • Bibliotecários: 99%
  • Operadores de telemarketing: 99%
  • Digitadores: 99%
  • Analistas de crédito: 98%
  • Operador de telefonia: 98%
  • Corretores de imóveis: 97%
  • Caixas (supermercado, lojas): 97%
  • Recepcionistas: 96%
  • Manicure e pedicure: 95%
  • Garçons e garçonetes: 94% (sério mesmo?)
  • Contadores e auditores: 94%
  • Vendedores do varejo: 92%
  • Guias turísticos: 91%

Sua profissão está na lista do site?  Mesmo que não esteja, se você ainda vai demorar mais que 20 anos para se aposentar (lembre-se da reforma) , é melhor colocar as barbas de molho! Por outro lado, talvez você esteja um pouco mais tranquilo se for um profissional de TI. Será?

  • Técnicos de suporte/microinformática (se traduzi corretamente): 65%
  • Programadores: 48% (me surpreendeu!)
  • Analistas de Segurança da Informação, desenvolvedores web: 21%
  • Gerentes de sistemas: 3.5%
  • Administradores de sistemas e redes: 3%

Evidentemente, essa pesquisa serve apenas como referência e permite, de certa forma, comparar profissões. Há muitas outras variáveis que irão afetar a tendência de automatização e robotização dessas profissões e que é muito peculiar a cada país: corporativismo, protecionismo, cultura, desenvolvimento econômico e disponibilidade de infraestrutura são apenas alguns dos fatores que podem acelerar ou retardar a mudança. Por exemplo, na Índia ainda é possível ver mulheres com idade avançada exercendo atividades pesadas, como carregar pedras e entulhos de obras. Já se você for dirigir nos EUA é melhor saber colocar gasolina por conta própria e calcular quantos galões precisa.

Imagem: Anthony Inswasty

De todo modo, muitas profissões estão sumindo e negócios fechando em razão do advento de outras profissões e negócios. Há quinze anos aposto que você não conhecia alguém que trabalhava com marketing digital, SEO e data science.

Já no governo, a #transformaçãodigital que vem acontecendo mundo afora também tem provocado mudanças.

Sobre isso, no meu último post citei o esforço do Reino Unido para mapear e estruturar, segundo eles, o primeiro primeiro framework nacional de carreiras das funções: Digital, Data & Technology. Eles organizaram a atuação dos funcionários do governo em seis conjuntos de profissões:

  • data
  • IT operations
  • product and delivery
  • quality assurance and testing (QAT)
  • technical
  • user centred design

O fato das profissões ligadas à ciência de dados e à experiência do usuário figurarem em destaque no framework demonstra a influência da transição para o #governo digital. O redesenho de processos para trazer a visão do cidadão para o centro do desenvolvimento dos serviços públicos e o uso intenso das informações disponíveis para prover serviços mais inteligentes e menos burocráticos são características marcantes do governo digital.

O fato das profissões ligadas à ciência de dados e à experiência do usuário figurarem em destaque no framework britânico demonstra a influência da transição para o #governo digital.

Nesse cenário, os órgãos poderão continuar apostando em #concursos públicos e carreiras estruturadas para prover pessoal qualificado? Com a PEC do Teto e as aposentadorias acontecendo em ritmo acelerado sabemos que não será nada fácil. Além disso, sabemos muito bem que os mecanismos de avaliação de desempenho e de correção de desvios não têm dado a resposta que a sociedade espera para garantir alto desempenho de servidores públicos.

Os órgãos poderão continuar apostando em concursos públicos e carreiras estruturadas para prover pessoal qualificado?

Por outro lado, a saída seria então intensificar a #terceirização e a obtenção sob demanda de recursos especializados no mercado? Parece bom, mas com o presidencialismo de coalização e as mudanças frequentes na liderança das organizações (e de alguns vários níveis abaixo) para atender indicações políticas, como assegurar o desenvolvimento de visão de longo prazo para as políticas públicas? Como assegurar a manutenção de programas e estratégias que trazem bons resultados se quem entra quer mudar tudo? Além disso, as capas dos jornais mostram que ainda não logramos estabelecer controles preventivos suficientes para assegurar a prevalência da ética e da integridade em nossas organizações, aumentando os riscos da ausência de carreiras estruturadas.

Obviamente, a solução para a administração pública seguirá passando pelo adequado equilíbrio entre essas duas alternativas. Quando somamos a esse equilíbrio a estratégia de compartilhar o provimento de serviços públicos com a sociedade civil por meio de plataformas e de abertura de dados (governo como plataforma), começamos a enxergar alguma luz no final do túnel.

De todo modo, uma coisa é certa: o novo profissional – público ou privado – que surgirá dessa mudança precisará transitar com fluência entre tecnologia e dados. A criatividade, a empatia e as habilidades sociais serão associadas aos algoritmos e dados das nuvens para promover análises e decisões cada vez mais rápidas e complexas. Um pouco humano, um pouco robô, o trabalhador do futuro será bastante diferente. E não deve demorar.