Atribui-se a Gandhi a frase:

“First they ignore you, then they laugh at you, then they fight you, then you win.”

“Primeiro eles lhe ignoram, depois riem de você, depois lutam contra você, depois você vence.”

Talvez seja cedo para dizer, mas muitos acreditam que a frase já se encaixa perfeitamente na história do Bitcoin. Mais especificamente, na da tecnologia subjacente a ele, o blockchain. Criado em 2009, o Bitcoin foi praticamente ignorado pela imprensa (e consequentemente por quase todo mundo) até 2011, quando a cotação da moeda subiu de $0.30 para mais de $20 em poucos meses. Você não deve se lembrar (eu não lembro), mas provavelmente leu ao menos manchetes a respeito. E pouco tempo depois deve ter lido outras sobre: a queda da cotação para a casa dos $2; hackers roubando bitcoins; mercados de drogas na deep web onde o pagamento era feito em bitcoins; o “problema” da falta de regulação; a nova escalada da cotação para os $1000 em 2013; mais hackers; a queda na cotação em 2014/2015… O Bitcoin foi “declarado morto” tantas vezes que os seus entusiastas fizeram até um site para zombar disso. Mas aos poucos o jogo foi se invertendo e as reportagens passaram a focar nos diferenciais da tecnologia blockchain ao invés de criticar a moeda bitcoin.

O blockchain do Bitcoin é um banco de dados onde ficam registradas todas as transações ocorridas com cada uma das moedas bitcoin. Uma vez que algo tenha sido escrito no blockchain, não pode ser apagado. É semelhante aos registros de imóveis, onde cada matrícula guarda o histórico da respectiva propriedade. Mas esse banco de dados não está armazenado em um único local nem sob controle de uma única entidade, como no caso do cartório. O banco está descentralizado, com cópias em todos os computadores que queiram fazer parte da rede Bitcoin. Um software específico implementa regras e incentivos econômicos que garantem que todas essas cópias sejam exatamente iguais, o que torna impossível “falsificar” uma moeda bitcoin.

O sucesso do projeto em demonstrar a viabilidade e a resiliência do blockchain estimulou a criação de outros protocolos baseados na mesma tecnologia – alguns deles meras cópias sem qualquer agregação de valor, mas outros com alguns diferenciais interessantes à época, como maior velocidade de processamento ou aumento da privacidade. No mundo corporativo, dezenas de grandes empresas se puseram a estudar a tecnologia na busca de como ela poderia contribuir para os seus negócios. Grandes bancos se reuniram em um consórcio para desenvolver uma tecnologia semelhante para uso no sistema financeiro tradicional. Consultores internacionais passaram a usar a expressão “what is your blockchain strategy?” em suas apresentações. Blockchain virou hype.

Mas provavelmente a inovação mais interessante derivada do Bitcoin foi o surgimento do Ethereum. Enquanto no Bitcoin os computadores conectados à rede “apenas” validam transações e armazenam seu histórico, no Ethereum eles também executam códigos de programas de computador que podem ser desenvolvidos por qualquer pessoa para a plataforma. Com isso, aplicações passam a poder ser executadas não mais por um único computador, mas sim por uma rede descentralizada de computadores. Elimina-se a necessidade de confiar numa entidade central, sujeita a ataques internos e externos, bem como a interferências governamentais (lembra do bloqueio do Twitter e do Facebook pelo Egito nos protestos de 2011?). Como no Bitcoin, a tecnologia blockchain garante que todos os computadores da rede enxerguem os mesmos dados e os processem da mesma maneira.

Proposta em 2013 e lançada em 2015, a rede Ethereum ainda está na sua “primeira infância”, mas já se destacou o suficiente para atrair os olhares de concorrentes. Um exemplo é o embrionário projeto Rootstock, que se propõe a fazer a mesma coisa usando bitcoins como moeda da rede. Gigantes como Microsoft, Amazon e IBM também não querem ficar para trás, e começaram a oferecer uma nova categoria de produto, o “blockchain as a service”.

Talvez o pioneirismo e o efeito de rede do qual se beneficia o Ethereum não sejam suficientes para que ele se torne a plataforma padrão de desenvolvimento de aplicações descentralizadas. Há muitos obstáculos já mapeados a serem superados, em especial ligados capacidade da rede para tratar grandes volumes de dados. Mas pelo menos dois fatos apontam fortemente nessa direção.

O mais recente é a criação da Enterprise Ethereum Alliance. Trata-se da união de grandes empresas (incluindo nomes como Microsoft, Santander, JPMorgan e British Petroleum) e startups trabalhando em conjunto para aperfeiçoar a plataforma Ethereum e comprometidas a dar continuidade ao desenvolvimento em código aberto. Seria o fim da fase “they fight you”?

O segundo fator é o mais importante: o mindshare da plataforma entre desenvolvedores! Projetos promissores já existem ou estão em desenvolvimento, como soluções de identificação pessoal, messaging, armazenamento de arquivos, fechaduras inteligentes, mercados preditivos e até moedas virtuais lastreadas, cuja cotação é estável. Os dez maiores projetos já somam quase meio bilhão de dólares em valor de mercado. E por estarem na mesma plataforma, todas essas aplicações podem se integrar mais facilmente, catapultando o efeito de rede.

Independentemente de qual plataforma saia vencedora dessa “batalha”, uma coisa é certa: o movimento que já está sendo chamado de “Web 3.0” chegou para ficar. Essa tecnologia não pode ser “desinventada”. Veremos ocorrer a descentralização de tudo aquilo que fizer sentido ser descentralizado. As possibilidades são infinitas e inimagináveis! Afinal, as pessoas que viram nascer os protocolos que hoje são a base da Internet certamente não previram o Facebook ou o Uber. Da mesma forma, dificilmente conseguiremos nós antecipar tudo o que poderá surgir nesse “admirável mundo novo” nos próximos 5 a 20 anos.


Markus Buhatem Koch (@markusbkoch) é engenheiro por formação e auditor do TCU por opção. No órgão, coordena uma equipe de cientistas de dados que aplica técnicas de mineração de dados e machine learning a problemas de controle externo. Nas horas de folga consome doses cavalares de slacks, blogs, tweets e reddits sobre blockchain e temas correlatos.

 


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