Comecei meus estudos em uma escola particular montessoriana de Brasília que era (e ainda é) linda de viver. Quando eu tinha 7 anos, meus pais resolveram se mudar para Sete Lagoas-MG e, curiosamente, as melhores escolas em Minas naquela época ainda eram as públicas. Cursei, portanto, do 2o até o 5o ano (antigas 1a a 4a série) em uma escola estadual. Frequentei uma escola particular dirigida por freiras do 6o ao 9o ano e o ensino médio fiz em outra escola particular dirigida por padres. Tive excelentes professores, com alguns deles ainda mantenho contato, mesmo tendo saído de Sete Lagoas há quase 25 anos. Pronto! Descobriram minha idade.

Lembra da Pietra? A minha filha que apareceu no meu primeiro post? Então, hoje ela cursa o 7o ano em uma das melhores escolas particulares de Brasília e uma coisa eu posso afirmar: quase nada mudou no sistema de ensino da época que cursei o 7o ano (antiga 6a série) no interior de Minas. O sistema daquela época é praticamente igual ao de hoje. O modelo educacional ainda espera que um professor domine o conteúdo de uma disciplina e o ensine para alunos sentados em carteiras escolares. O conteúdo é ensinado de maneira padronizada sem levar em consideração capacidade, curiosidade e talento de cada estudante. Além disso, o modelo nivela o conhecimento de todos por meio de um currículo básico e de testes periódicos que aferem a evolução dos estudantes.

Você sabe como e onde surgiu esse modelo educacional tradicional ainda amplamente utilizado nas salas de aulas das escolas e universidades do nosso país? Na Hungria de 1868 nasceu a lei de ensino público que definiu como obrigatória a escolaridade de crianças de 6 a 15 anos, colocou como tarefa dos municípios a criação de novas escolas, renovou a estrutura e o conteúdo do ensino, organizou a formação de professores, estruturou e delegou ao Estado o controle sobre as escolas. Sob influência da nova lei aumentaram significativamente o número de escolas primárias, o número de professores e os índices de frequência às aulas, além de o sistema e recursos do currículo e do trabalho escolar terem se modernizado (livros didáticos, bibliotecas, recursos ilustrativos).

Com o avanço da industrialização, que precisava de uma mão de obra bastante manual mas mais qualificada, as pesquisas sobre ensino público foram intensificadas durante o século XIX em toda a Europa. Os debates sobre o modelo ganharam mais visibilidade, o que provocou o surgimento de um sistema educacional que atendia aos interesses sociais da época. Em resumo, surgiu no século XIX o modelo de educação pública, gratuita e massificada.

A Revolução Industrial esperava uma força de trabalho composta por 80% de trabalhadores manuais e 20% de trabalhadores que atuavam em áreas administrativas ou especializadas. Um ensino padronizado, burocrático, repetitivo e segmentado atendia bem aos anseios daquele momento. No século XX, esta proporção foi se alterando e hoje vivenciamos um mercado de trabalho com um número cada vez menor de funções de baixa qualificação. As que sobraram após automação foram transferidas para países com salários mais baixos. O acesso à informação é extremamente facilitado e as decisões cada vez mais descentralizadas. Tudo isso para entregar produtos e serviços cada vez mais personalizados, com mais qualidade e com maior disponibilidade. O século XXI chegou! E veio de Uber…

Qual profissional vai resistir à automação do século XXI?

Em 2013, os pesquisadores Carl Frey e Michael  Osborne da Universidade de Oxford divulgaram relatório que apresenta o resultado da análise de 702 profissões e a chance de serem completamente automatizadas em 20 anos. Estimaram que em até duas décadas, 47% do total de empregos dos EUA correm sérios riscos de desaparecerem. A profissão com maior chance de ser totalmente automatizada é a de operador de telemarketing e a que tem menor chance, dentre as 702 analisadas, é a de assistente social na área de drogas e saúde mental.

According to our estimate, 47 percent of total US employment is in the high risk category, meaning that associated occupations are potentially automatable oversome unspecified number of years, perhaps a decade or two. (Frey e Osborne)

Em 2015, a Foundation for Young Australians publicou o relatório The New Work Order que aponta que mais de 50% dos estudantes australianos estão se formando em profissões que sofrerão transformações radicais nos próximos quinze anos.

Recentemente foi divulgado que uma empresa japonesa de seguros substituiu 34 funcionários por um robô. O algoritmo analisa documentos médicos e determina pagamentos com base em ferimentos, históricos e procedimentos. Com isso, a empresa espera poupar mais de um milhão de dólares por ano.

Não apenas trabalhos manuais estão sendo substituídos. Os intelectuais também estão! Faz sentido ainda um sistema de ensino que surgiu no século XIX e que pouco evoluiu? Será o modelo que está completando 150 anos  ainda atende às necessidades de agora?

Mas calma, parece que nem tudo está perdido. No ano passado, o Canal Futura lançou a série “Destino: Educação – Escolas Inovadoras”  que conta um pouco da realidade de 12 escolas espalhadas por nove países do mundo, incluindo o Brasil. Essas escolas reinventaram suas práticas pedagógicas, currículo escolar, infraestrutura, entre outros aspectos, para motivar uma aprendizagem mais dinâmica, conectada com seu entorno e próxima da realidade dos estudantes.

Estão surgindo novas tendências que vão transformar o modelo centenário, tais como a personalização do ensino, que considera a individualidade de cada aluno; o uso de tecnologia para aprendizagem; a experimentação dos conteúdos teóricos a partir de atividades práticas e projetos; o desenvolvimento de habilidades e competências como liderança, comunicação, cooperação e sociabilidade; a gamificação do processo educativo, que envolve tarefas, desafios, narrativa, pontuação e outros aspectos do universo dos jogos digitais; e a quebra dos muros invisíveis, conectando a escola com o mundo à sua volta, contextualizando o ensino e levando o aprendizado para fora da instituição.

No Brasil já podemos assistir ao movimento que promete revolucionar o modelo educacional. Nos últimos anos surgiram escolas, como a Lumiar de Ricardo Semler, que trazem propostas pedagógicas inovadoras e que prometem formar o profissional do futuro, qualquer que seja este profissional. A proposta da Lumiar é baseada em projetos, onde alunos de todas as idades aprendem enquanto se juntam em torno de um desafio comum, como a construção de um avião, e cada um se encarrega de parte do projeto que é adequada ao seu nível de desenvolvimento. Incita a criatividade dos alunos e aumenta a sede por conhecimento. A barreira para difusão desses novos métodos ainda é o custo. Mensalidades que giram em torno de R$ 5.000,00 para o ensino básico são obstáculo para a expansão.

E as escolas de governo? No Brasil inteiro estão espalhadas diversas instituições que trabalham com formação e aperfeiçoamento profissional dos servidores públicos nos três níveis de governo (federal, estadual e municipal) e dos três poderes (legislativo, executivo e judiciário). Para se ter uma noção do potencial dessas instituições, em 2003 foi criada a Rede Nacional de Escolas de Governo, uma iniciativa da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), com objetivo de fomentar o compartilhamento de conhecimentos e experiências entre as escolas. Inicialmente contava com 49 instituições. Hoje já são mais de 260 participantes.

Será que essas instituições podem contribuir para a transformar o servidor público? Aquele servidor público que precisa não apenas estar preparado para mas também induzir o tão sonhado governo digital. De que forma as escolas podem se reinventar e trazer propostas pedagógicas que fogem do formato de aula 1 para n ou dos cursos EAD tradicionais?

Será demais sonhar com escolas de governo que privilegiam a interação entre alunos, e ainda contam com recursos tecnológicos para vídeo-aulas e aulas multimídia de forma a vencer o desafio que este país continental representa? Será demais imaginar espaços que integram educação e cultura, trazendo atividades culturais para os momentos educativos, de forma que possamos provocar reflexões nos servidores públicos e incentivar comportamentos mais empáticos em relação às demandas da sociedade?

Podemos imaginar que as escolas de governos são, na verdade, ambientes que aproximam o servidor de parceiros e que incentivam o trabalho colaborativo, estimulando o co-working.  As escolas podem ser o canal que coloca órgãos, universidades e iniciativa privada para que, ao redor de uma única mesa, possam buscar soluções realmente inovadoras para os problemas complexos que a sociedade enfrenta. Precisamos de ambientes que promovam a integração dos alunos, apostando que, mais do que o desenvolvimento intelectual, o que faz diferença é a formação de times multidisciplinares e que trabalham em harmonia e alcançam resultados de maior impacto para sociedade.

Por fim, será que as escolas de governo podem fomentar a interação dos servidores com quem é a verdadeira razão de existir do Estado? As escolas podem ser ambientes que não só permitem mas também estimulam o livre acesso dos cidadãos, criando oportunidades de discussão dos problemas e incentivando a cocriação de soluções. Um espaço para que todos juntos e misturados construam o tão esperado governo digital.

O República Digital não tem a intenção de ser um canal de comunicação de mão única. Nós também queremos saber o que vocês pensam a respeito dos temas que trazemos. Queremos trocar experiências e, mais ainda, queremos trocar percepções sobre o que podemos fazer para construirmos um país melhor. Sei que em tempos de lava-jato o desânimo bate e não raramente nos perguntamos se toda esta luta faz realmente sentido. Mas eu me agarro na certeza de que o bom gestor público existe e que são infinitamente mais numerosos do que os que se perdem no caminho. Se este canal servir para, pelo menos, promover reflexões em alguns de vocês, então já valeu a pena.

Beijo no coração e até a próxima!