Essa semana minha filha me pediu ajuda no dever de inglês. Ela deveria escrever sobre o impacto das redes e mídias sociais em nossas vidas. Para ajudá-la, imaginei-me na pele de uma jovem adolescente de treze anos com um homework para fazer. O primeiro efeito que senti foi uma súbita queda na autoestima. O segundo, embora pareça um paradoxo, foi uma convicção intensa de que eu sempre tenho razão, mas ninguém me entende.

Por ter razão, comecei achando a própria questão um contrassenso. Ora, só há impacto quando há mudança. Como eu poderia avaliar os efeitos transformadores de algo que nunca foi transformado? As mídias sociais não causaram impacto algum na vida de alguém que tem treze anos, ou melhor, elas causaram tanto impacto quanto a geladeira ou a TV. Para mim, todas elas sempre existiram, e, além disso, a vida é assim mesmo, meio digital. Se for para perguntar sobre impacto da TV na vida das pessoas, seria melhor procurar alguém com, sei lá, uns 80 anos.

No entanto, é preciso fazer o dever. Nessa hora uma boa solução seria examinar o tema por outro lado. Vamos imaginar o impacto na vida das pessoas se, de repente, as mídias sociais desaparecessem? Para aumentar o desafio, não vou considerar efeitos sociais graves como depressão, tédio e o desemprego de youtubers.

A primeira coisa que aconteceria seria o aumento imediato da conta de telefone, que foi uma mídia social pioneira, ainda que ao seja considerada paleolítica, como as cartas. Por causa disso, imagino que iriam brigar comigo por passar muito tempo no telefone, como já acontece, e só para falar com uma pessoa de cada vez e pagar mais caro por isso.

Além disso, teríamos que assistir mais TV. Acho que muitos programas se tornariam menos chatos devido à falta de opções. Quem poderia suportar ter somente uma centena de canais à disposição? Teríamos que escolher entre ver mais propaganda ou nos tornar ninjas no uso do controle remoto.

Também me preocupo com os amigos. Seriam menos numerosos e com menor tempo de convívio. Hoje, encontro com eles na escola, na igreja ou em eventos variados. E depois continuamos as conversas nas redes. Sem elas, seria mais difícil manter a amizade em muitos casos, como no caso de uma mudança de casa. Acho que eu riria menos.

Parece, então, que o mundo se tornaria subitamente um lugar mais tedioso.

Mas como a professora pediu para falar também das desvantagens das mídias sociais, vou tentar. Penso que, talvez, com tempo sobrando, mais pessoas se tornariam escritoras. Será? Talvez não seja verdade. A possibilidade de ter mais leitores cria mais aspirantes a JK Rowling, e não menos. Será que estudaríamos mais para as provas? Não acredito nisso. Tenho certeza que qualquer coisa é mais legal que estudar, há muitas gerações.

Puxa, é difícil achar defeitos em algo tão legal. Mas tenho certeza que há pessoas que conseguem! Sempre tem gente disposta a criticar qualquer ideia. Até comentários bobos sofrem bullying nas redes. Há muitas publicações sem noção alguma. Todo mundo pode falar o que quiser. Isso seria um defeito?

Voltando a pensar como pai e no dever da minha filhota, tentei convencê-la a seguir uma linha como essa no texto, mas ela ficou com medo de a professora não gostar e preferiu uma abordagem segura, como a questão de se julgar os outros pelo número de seguidores. Com certeza vai tirar uma nota alta, e analógica, em inglês.

Epílogo: ela tirou 9,6.


Daniel Jezini é auditor no TCU há 16 anos e tem se dedicado à laboriosa tarefa de tornar interessantes assuntos com tanto poder sedativo que deveriam ser regulados pela Anvisa. Em 2016, foi premiado pelo Instituto Brasileiro de Governança Pública como o professor e palestrante com avaliações mais elevadas. É bom ter cuidado com as notas que você dá nos eventos que vai.

 


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