Foram dois dias intensos coordenando dez oficinas em paralelo. Cada oficina era conduzida por dois ou três facilitadores que coordenavam a discussão de dez dirigentes. O produto esperado era o planejamento de ações alinhado com a estratégia institucional. O resultado intangível foi a colaboração entre os dirigentes e o compartilhamento da estratégia. As ferramentas utilizadas foram inspiradas no design thinking. Inúmeras horas de preparação para isso tudo funcionar. E, ao fim, não consigo medir o tamanho da alegria de ver um belíssimo resultado, além de clientes e participantes extremamente satisfeitos. Para fechar com chave de ouro, um happy-hour com direito a retrospectiva do tipo Gostei/Gostaria com vários post-its recheados de elogios e vários outros com sugestões de melhoria para um próximo evento. Uma maravilhosa sensação de dever cumprido invadiu meu ser. Calma, voltarei ao normal, não precisa mudar de blog.

Aí vem a pergunta: por que isso é considerado hoje menos revigorante do que um banho de cachoeira? Por que isso recarrega menos nossas baterias do que uma viagem pela Europa? Por que as pessoas esperam mais ansiosas pelos dias de folga do que por dias como esses? Comecei a escrever este artigo logo depois do happy-hour. Coincidentemente, na manhã seguinte, vários amigos compartilharam no Facebook um texto de Ruth Manus intitulado “A geração que encontrou o sucesso no pedido de demissão”. Ela cita diversos amigos que mudaram o rumo da carreira para trabalhar num hostel na praia, para fazer hambúrguer ou para aprender a surfar.

 

Batalhei muito, corri atrás dos meus sonhos e hoje tenho uma vida que não preciso tirar férias dela. É uma frase clichê, eu sei, mas ela realmente faz sentido para mim. Muito mais importante do que planejar as melhores férias do universo é transformar o universo ao seu redor para que a rotina seja gostosa, mesmo que corrida e cansativa. O prazer que sinto ao chamar o Uber para ir para o aeroporto iniciar uma viagem é do mesmo tamanho que sinto ao sair do elevador do meu prédio e abrir a porta da minha casa na volta das férias.

E eu, depois de tanto refletir a respeito de uma quase culpa por gostar tanto do que eu faço, cheguei à conclusão de que se eu decidisse vender artesanato na praia ou abrir uma pousada, as pessoas provavelmente olhariam admiradas com a coragem de jogar tudo para o alto e de me reinventar. Parece que diminuem a nobreza que existe no desafio diário de transformar o meu mundo no melhor ambiente possível, seja em casa ou no trabalho. Avaliam como menor o amor que sinto pelo que faço simplesmente porque não estou passeando na Nova Zelândia ou mergulhando no Caribe. Ou me consideram sortuda por ter encontrado felicidade no serviço público.

De onde vem esta culpa que sentimos por trabalhar muito? E a culpa é maior ainda se fazemos isso por opção. Talvez ela exista porque abrimos mão de tempo com nossos queridos familiares. Mas será isso mesmo? A pessoa que é admirada por jogar tudo pro alto e abrir uma pousada pode ficar mais tempo com a família? Venhamos e convenhamos: não é bem assim que a banda toca para os empresários do nosso país. Acho que nos culpam por amar o mundo corporativo. E aí me pergunto: quem demonizou o trabalho? Não consegui chegar a uma conclusão a respeito da origem desta (in)versão de valores, mas convido vocês, principalmente os gestores de equipe, a refletirem  como estamos perpetuando esta ideia e transformando os trabalhadores em um conjunto de pessoas insatisfeitas que desprezam o que conquistaram e sonham com um futuro nem sempre viável.

Não é incomum o mundo corporativo recompensar pessoas ou equipes que desempenharam um bom projeto por meio do pagamento de bônus. Será que é razoável pagar mais por ter alcançado determinado resultado? Também somos recompensados com dias de folga por termos superados a meta. Será que isso faz sentido? Premiar quem faz um trabalho bacana com menos trabalho? “Faça um trabalho legal porque o legal é não trabalhar.”  Existe uma incoerência que me preocupa nesta abordagem. Que tal encontrar propósito no que você faz? Sei que o “mar não está para peixe”, mas encontrar alegria no que faz ou decidir fazer com alegria o que tem para fazer vai te trazer muito mais prazer do que o aguardar ansiosamente pelos momentos de não trabalho.

Para encontrar esta alegria é muito mais relevante olhar para dentro do que para fora. É claro que o ambiente é importante, mas tentar buscar um espaço de atuação que seja compatível com algo que te motive é essencial. E aí vem a pergunta: o que te move? Cada pessoa é movida por estímulos diferentes (e isso não necessariamente tem relação com vender sanduíche na praia) e cada um é responsável por buscar este autoconhecimento. Não tem como ser feliz no trabalho se não souber avaliar as oportunidades e identificar aquela que é adequada ao seu modo de ver a vida.

Por outro lado, se você é líder de uma equipe, é seu papel ficar atento e buscar entender o que move cada um do seu time e em que tipo de atividade ele pode se envolver para que a melhor recompensa por entregar um trabalho legal seja um novo trabalho mais legal ainda e não uns dias de folga.

Mas aí você me questiona: “E como posso fazer isso? Não sou formado em psicologia para entender o ser humano, não sou super-herói com visão de raio-x. Sou apenas um bom técnico que acabei chegando na carreira de gestor porque minha instituição não tem carreira em Y.” Caro amigo gestor de equipe, sinto muito. Se antes de se tornar gestor você tinha como insumo principal de seu trabalho questões pessoais como habilidades, técnica, tecnologia e conhecimento, agora seu principal insumo para entregar bons resultados são as pessoas. Se elas não estiverem felizes, elas certamente produzirão menos do que poderiam e você entregará menos do que gostaria. E se eles são servidores públicos, o Brasil vai ter menos do que merece.

“People ask me: how do we change them?  My point is: you change yourself!” Jurgen Appelo

Nos próximos posts vou falar de abordagens inovadoras que têm me ajudado a conhecer melhor as pessoas ao meu redor e que também podem te apoiar nesta tarefa árdua de ajudar pessoas a se encontrarem e ajudar pessoas a acreditarem que a felicidade não está lá fora. Ferramentas que, além de energizarem as pessoas, também ajudam a transformar o ambiente de um time, que provocam alinhamento e transformam as horas de trabalho em momentos revigorantes do dia.

A principal dessas abordagens que utilizamos foi proposta pelo holandês Jurgen Appelo e divulgada no livro Management 3.0, leading agile devolopers, developing agile leaders. Ele traz ferramentas de gestão de equipes ágeis, mas que podem ser aplicadas, na minha nem tão humilde opinião, em qualquer equipe de alto desempenho. A abordagem nos convida a passear por seisdimensões da gestão de equipe: energizar pessoas, empoderar times, alinhar restrições, desenvolver competências, crescer a estrutura e melhorar continuamente.

 

 

Trabalho não precisa ser um castigo. E você não precisa se sentir culpado se não é um castigo para você. E para conquistarmos um governo digital, vamos precisar muito do seu trabalho e do trabalho da sua equipe. Contamos com você!