São 5 am na cidade de Allahabad, estado de Uthar Pradesh, Índia. É 27 de  janeiro de 2013 quando entro em uma tenda de Sadhus (homens santos na religão hindu) que se preparam para um dos dias sagrados do grande Khumb Mela – o maior encontro de pessoas do mundo –  que acontece a cada 12 anos. Em 2013, quando lá estive, mais de 30 milhões de pessoas participaram da mega concentração.

Lembrei desse momento por acaso, na semana passada, quando preparava minha apresentação para o debate sobre Governo Digital: Marcos legais, Governança e Estratégia, no Seminário Brasscom. Estavam comigo nessa mesa de debates lideranças do setor governamental representando o Ministério do Planejamento (MP), Serpro e Correios. Minha apresentação teve o título: “Governo Digital e a TI pública: uma questão de ESCALA”.

“Você é doido!”, dizia pra mim um dos diretores do projeto de cooperação de que participava, quando avisei que iria de férias ao Khumb Mela. Alertava ele: “Olhe esses colegas todos – adultos, barbados, indianos e hindus – e pergunte a eles se algum deles já foi a algum Khumb Mela na vida. Nenhum foi! E você quer ir lá sozinho?”.  Segundo eles, em toda edição do Khumb Mela muitas famílias se separam para sempre no meio da multidão. “Lá você não escolhe para onde vai, a massa simplesmente te leva!”, avisou.

Khumb Mela em 2001, foto de Steve McCurry

A visão que obtive na tenda antecipava um pouco do dia que viria e explicava o que passei a noite ouvindo. Embora estivesse a cerca de 4 km de distância dos quilométricos acampamentos, o som das massas de gente cantando mantras e orações indistinguíveis durante a noite impressionava. Estacionadas na planície Sangham, em frente ao histórico rio Ganghis, estavam dezenas de milhares de tendas como essa.

Tenda no Khumb Mela 2013, Foto de Márcio Braz

A memória veio à tona semana passada justamente porque estava pensando na importância do ganho de escala. E se é algo que observei, na prática, nos dias que passei na Índia, foi a importância de se pensar em escala. Na Índia, tudo envolve muita gente. Segundo meus amigos, muitos jovens indianos sonham em criar um produto de 1 dólar que possa ser vendido a todo indiano, o que os permitiria faturar mais de 1 bilhão de verdinhas. Alimentar uma tenda, prover eletricidade, água potável, identificação, correio –  tudo na Índia envolve massas de gente.

No Brasil e, especialmente no governo, nem sempre pensamos assim. A lógica da atuação em silos é presente em quase toda organização pública. Projetos transversais, compartilhamento de dados, reuso de soluções são, infelizmente, mais exceção do que regra.

Conforme discuti na palestra, são inúmeros CIOs no governo que, ao chegarem ao posto, deparam-se com uma realidade para lá de conhecida: insuficiência de recursos humanos especializados (tema objeto do Ac. 1200/2014-TCU), sistemas legados, dificuldades com compliance, infraestrutura com problemas e tendo que gerenciar contratos de todo tipo: de antivírus à fábricas de software.

De forma oposta, organizações que lideram a transformação digital em âmbito global possuem características especiais que as permitem escalar operações de forma exponencial e em ritmo surpreendente. Empresas como Uber, AirBnb, Github, Waze, Netflix, entre outras, têm sido estudadas por numerosos especialistas que tentam compreender como operações físicas têm sido substituídas por operações digitais, baseadas em informação.

Conforme foi perceptível no evento, o escritor da moda é Salim Ismail – autor do livro que já se tornou um ícone desse movimento: Exponential Organizations – Why new organizations are 10x better, faster and cheaper than yours (and what to do about it). Aliás, nosso especialista no assunto exponencialidade – Wesley Vaz – deve produzir uma série de posts sobre isso aqui no República Digital.

No livro, Salim apresenta a seguinte figura, cujo lado direito explorei um pouco no evento:

Fonte: Exponential Organizations, Salim Ismail e outros, 2014

As organizações exponenciais (ExO) não possuem grandes conjuntos estáticos de recursos físicos e humanos. Ao contrário, conforme ampliam suas operações, obtém acesso sob demanda a ativos (Leveraged Assets) de terceiros (ex: carros no Uber, imóveis no AirBNB, infraestrutura de nuvem na Netflix) e a recursos humanos (motoristas no Uber, programadores no GitHub e por aí vai). Além disso, as empresas – em especial as de tecnologia – costumam estar suportadas por plataformas que viabilizam a participação da comunidade e das massas no desenvolvimento e na entrega de suas soluções. O crowdsourcing veio para ficar!

De forma oposta, organizações que lideram a transformação digital em âmbito global possuem características especiais que as permitem escalar operações de forma exponencial e em ritmo surpreendente.

Nada poderia ser mais diferente da lógica individual e fragmentada que ainda impera em nossas organizações públicas. Essa realidade – contudo – não é exclusividade do governo. Tem muita empresa grande atuando em mercados tradicionais que ainda não conseguiu perceber os riscos da manutenção de estratégias convencionais. Todos os dias repetem-se histórias de impérios e lideranças sendo substituídas por um novo player que se alavanca com a adoção de novos modelos e tecnologias.

Voltando ao setor público, em 2015, a partir de fiscalização destinada a avaliar os modelos de contratação de desenvolvimento de software (Acórdão 2.362/2015-TCU), o TCU recomendou à Secretaria de Tecnologia da Informação do Planejamento:

9.1.1. efetue levantamento a fim de identificar demandas de soluções de TI comuns às organizações do Sistema de Administração dos Recursos de Tecnologia da Informação (Sisp), com vistas a analisar a oportunidade, a conveniência e a viabilidade de implementar o provimento de modo padronizado ou centralizado dessas soluções para as organizações do Sisp; (seção 3.1)

Tal proposta resultou dos achados de auditoria que revelaram, por exemplo, que as organizações públicas objeto da amostra (11 organizações) obtinham software da seguinte forma:

Figura 1 – Formas de provimento de soluções de TI adotadas pelas instituições entrevistadas – TC 002.116/2015-4 – Ac. 2.362/2015-TCU

Adiciona a equipe no relatório que:

“25.       Análise preliminar dos dados apresentados permitiu constatar que entre as soluções providas por meio de desenvolvimento, contratado ou interno, há software para, por exemplo: ouvidoria, recursos humanos (atividades complementares à rotina de folha de pagamento), comunicações administrativas, agenda, catálogo de software, gestão e acompanhamento contratual, controle de acesso e workflow. Esses sistemas referem-se a temas que não parecem ser exclusividade de um ou outro órgão.”

De maneira geral, essas afirmações são corroboradas por levantamento contemporâneo realizado pela CGU que, ao avaliar a efetividade do portal de software público brasileiro (Portal SPB),  revelou:

  • 57% das unidades analisadas não utilizam softwares disponíveis no Portal SPB;
  • de forma geral, as unidades preferem adotar soluções de software no mercado privado ou desenvolvê-las internamente;
  • órgãos também estão buscando soluções distintas para finalidades idênticas ou semelhantes.

Veja na figura abaixo a quantidade de aplicações sendo desenvolvidas (ou adquiridas) para objetos semelhantes:

Iniciativas para desenvolvimento e aquisição de software – Fonte: Relatório de Avaliação por Área de Gestão nº 4 – CGU – Maio/2015

Ambos os trabalhos indicavam: há muito esforço duplicado e repetitivo. Segundo o levantamento da CGU, eram 93 iniciativas para aquisição ou desenvolvimento de softwares somente de recursos humanos. Esforço e recursos que não devem ser desperdiçados.

Tem muita empresa grande atuando em mercados tradicionais que ainda não conseguiu perceber os riscos da manutenção de estratégias convencionais.

Evidentemente, nem todo software é comum a um grande conjunto de organizações públicas. Há muitos sistemas e serviços especializados nas áreas de negócio específicas de cada órgão público. Porém, mesmo nesses casos, poderíamos estar utilizando plataformas e componentes que favorecessem o reuso, a integração e o compartilhamento de informações.

Nesse sentido, o advento das iniciativas de governo digital em âmbito federal traz novo alento (confira o post O governo vai ser digital! E você está preparado?). Contudo, sua chegada imprime a necessidade de rediscussão do nosso modelo de TI pública. Não há hipótese de se pensar em governo digital individualmente, dentro de uma única organização. Essa era a lógica do governo eletrônico e ela já falhou. O TCU já apresentava os problemas dessa estratégia há mais de 10 anos atrás (Acórdão 1.386/2006-TCU). Não podemos repetir os mesmos equívocos. Em minha opinião, não pode faltar escala em sua estratégia de transformação digital!

Não pode faltar escala em sua estratégia de transformação digital!

Mundo afora, o governo digital faz parte da estratégia de modernização da administração pública. Uma administração que precisa ser mais simples, menos burocrática, mais eficiente e que priorize as necessidades do cidadão e não as do órgão público ou de seus funcionários. Serviços e informações de diferentes organizações unificados em uma visão integrada do Estado são essenciais para a implantação do governo digital.

Não há hipótese de se pensar em governo digital individualmente, dentro de uma única organização.

Sua viabilização, contudo, implica também reformas na TI pública e no mindset daqueles que compõem esse ecossistema. São diversos os aspectos que precisam ser discutidos, porém, diante de tarefas difíceis é fundamental não nos permitirmos afogar em oceanos de complexidade. Soluções simples, de ampla escala e que permitam ganhos rápidos e visíveis precisam ser adotadas para que a adoção do governo digital ganhe impulso e uma inércia positiva se estabeleça.

Enquanto isso, podemos discutir temas mais complexos que precisamos enfrentar para que, no médio prazo, as soluções desenvolvidas sob a lógica de governo digital possam se proliferar em número e já nascer sob a nova concepção: mais simples, integradas, escaláveis e propiciando melhor experiência ao cidadão. Conforme apontei na semana passada e também em palestra no 2º Seminário Internacional Brasil 100% Digital (assista aqui), precisamos seguir avançando em assuntos como:

  • Adoção de plataformas;
  • Remoção de entraves ao intercâmbio de dados;
  • Recursos humanos para viabilizar e liderar a transformação digital;
  • Estabelecimento de arquitetura tecnológica de referência;
  • Compartilhamento e provimento de infraestrutura;
  • Oferta de serviços móveis;
  • Nível de compliance com normas e regulamentos;
  • Os próximos passos no aprimoramento da governança de TI.

Aliás, esses serão alguns dos assuntos que pretendo explorar mais a frente aqui no blog. Vamos ver também como outros países encararam e encaram essa jornada. Coréia do Sul, Reino Unido, Austrália, Índia, Estados Unidos, México, entre outros, têm adotado estratégias para equacionar essas questões. Precisamos aprender com exemplos que deram certo e principalmente estudar as lições aprendidas daqueles que falharam. A resolução dessas questões soma-se a outro ponto fundamental que venho discutindo em palestras, trabalhos e publicações: a governança de TI em nível de Estado! Os diferentes atores que compõem a TI de governo em suas várias esferas e poderes – órgãos finalísticos, órgãos reguladores, controle, fornecedores, empresas públicas – precisam atuar de maneira harmônica e convergente para que a música possa ressoar. A governança de TI organizacional é importante, mas, para que o governo digital funcione como se espera, a governança de TI do Estado como um todo precisa subir a novos patamares.

Se você tiver outras sugestões ou considerações sobre esses assuntos, deixe seu comentário. Aliás, em breve, vamos abrir o espaço da comunidade no República.Digital – para que os leitores (que já estão nos pedindo) possam compartilhar seus melhores artigos. É essencial para o processo de transformação digital da gestão pública o envolvimento de toda a área de TI e de todos aqueles que pensam o serviço público. Cidadãos, servidores, terceirizados, gestores, fornecedores, representantes da sociedade civil e academia precisam se engajar na discussão e na implementação desse projeto para que algo maior e transformador aconteça.

Cidadãos, servidores, terceirizados, gestores, fornecedores, representantes da sociedade civil e academia precisam se engajar na discussão e na implementação desse projeto para que algo maior e transformador aconteça.