Outro dia chegamos à conclusão de que o governo brasileiro precisa inovar. Mas e o mundo? Será que só o Brasil precisa inovar? Será que os outros países já resolveram seus problemas, podem respirar aliviados e não se preocupar com a nova era digital?

Em recente publicação, a OCDE apresentou diversos indicadores que possibilitam uma visão geral do (baixo) desempenho do setor público dos países membros da organização. Em sua quarta edição, fica claro que muitos países ainda enfrentam grandes desafios econômicos. Reformas e outros programas essenciais precisam sobreviver em um contexto de investimentos públicos limitados. Ao mesmo tempo, é necessário enfrentar desafios extremamente complexos como, por exemplo, sustentabilidade e mudanças climáticas. Também merece destaque a ainda crescente desigualdade social que exclui (grande) parte da sociedade dos (poucos) benefícios alcançados no crescimento econômico recente.

Por outro lado, sabemos que essa desigualdade também gera impacto no ritmo da transformação digital de cada país. Assumindo que não temos tempo a perder e que na natureza nada se cria e tudo se transforma copia, fomos investigar como o setor público dos países mais desenvolvidos do mundo está enfrentando a complexidade dos desafios e catalisando a criatividade entre os servidores púbicos para que soluções inovadoras sejam regra e não exceção.

De acordo com o laboratório Nesta, fomentar inovação em instituições governamentais “requer time dedicado, qualificações e métodos específicos, e um suporte político consistente”. Em todo o mundo, surgem, portanto, laboratórios de inovação, dentro ou ao redor dos órgãos públicos, com a missão de serem os catalisadores da mudança na esfera governamental.

Para mais informações, visite http://www.nesta.org.uk/blog/world-labs

 

Os laboratórios de inovação em governo têm modelos de funcionamento, estruturas e propósitos bastante diversificados, mas pelo menos um objetivo esses times têm em comum: remover barreiras para fazer a inovação acontecer. Eles assumem diferentes funções: desde o desenvolvimento de novas tecnologias até a prestação de consultoria em metodologias de inovação, incluindo também desenho de políticas públicas mais eficientes.

Fonte: Nesta

Na Inglaterra, Nesta Public Service Lab dá suporte a pessoas inovadoras no desenvolvimento de ideias para solucionar desafios sociais. Apoiam projetos que podem ajudar a melhorar as vidas dos cidadãos, com atividades que vão desde o financiamento de projetos inovadores até o apoio à pesquisa aplicada.

No Canadá, MaRS Solution Lab é um laboratório de inovação social que ajuda na solução de problemas complexos da sociedade que requerem grandes transformações no sistema. Eles ajudam a entender esses desafios a partir da perspectiva dos cidadãos, envolvem as partes interessadas da sociedade para desenvolver protótipos de novas soluções, e aumentam a capacidade de mudança social, trabalhando com governos para criar novas políticas, redesenhar os serviços públicos e criar comunidades de aprendizagem.

Em Washington, o Office for Personnel Management’s (OPM) Innovation Lab ajuda os servidores públicos federais na aplicação de abordagens de design para desenvolver e implementar melhores serviços, programas e políticas públicas por meio de treinamentos e programas de capacitação.

DesignGov foi um programa com duração de 18 meses para espalhar a cultura de inovação no setor público australiano. Ele teve início em 2012 e sua operação chegou ao fim em Dezembro de 2013. A missão era demonstrar o valor da inovação trazida pela abordagem do design para tratar problemas complexos. No site, eles compartilham a experiência e descrevem fatores de sucesso que podem ser úteis para a construção de laboratórios de inovação com objetivos similares.

Em São Francisco, o Innovate SF preocupa-se em como a inovação pode apoiar o crescimento econômico e tornar o governo mais eficiente, transparente e responsivo, criando um ambiente que permita que a inovação floresça na Prefeitura.

De acordo com a IBM, o sucesso de um laboratório de inovação depende de uma boa definição da missão do time, de recursos financeiros disponíveis e do suporte de parceiros. A United Nations Development Programme (UNDP), em publicação de 2013 sobre uso de design thinking para excelência de serviços públicos, destaca que os laboratórios são mais efetivos quando são independentes do poder político dominante, quando têm autonomia financeira, e a sua gestão supera as trocas que acontecem na alta administração das organizações.

LabWorks

Em Julho de 2015, eu e Wesley tivemos a oportunidade de participar da conferência LabWorks 2015, em Londres.

Foi a quarta edição do evento global de laboratórios e reuniu pessoas de todo o mundo que trabalham com o tema inovação no setor público para conhecer ferramentas, adquirir habilidades, compartilhar experiências, além de construir rede de relacionamento para colaboração.

O objetivo da nossa participação era buscar inspiração nas discussões em torno do que é possível em se tratando de inovação no setor público e levar inspiração aos demais participantes por meio de palestra realizada por nós dois no segundo dia do evento: “Spreading innovation in a Supreme Audit Institution”. Divulgamos projetos inovadores em andamento no Tribunal e lançamos internacionalmente o laboratório de inovação do TCU, como o primeiro laboratório de inovação de um órgão de controle no mundo.

 

Um pequeno grupo pré-selecionado ainda teve a oportunidade de se aprofundar no tema por meio de dois dias de orientação personalizada. Nesta, GovLab, La 27e Región e MindLab, laboratórios organizadores do evento LabWorks 2015, ofereceram sessão intensiva de coaching para 16 laboratórios representados por 30 pessoas que estão enfrentando o desafio de implementar uma unidade de inovação no governo. O objetivo era fornecer aconselhamento de especialistas para ajudar a acelerar o movimento destes projetos do mundo real para uma implementação bem-sucedida.

Participei do coaching representando o TCU e recebi mentoria especializada para consolidação da identidade do laboratório  e pude trocar experiência e estreitar relacionamento com diversas pessoas.

Dos 30 participantes dos 16 países, uma delas não sairá da memória. Durante o coffee-break que rolou logo após a apresentação de cada um dos labs, a representante do laboratório da Indonésia fez questão de compartilhar sua angústia e prestar sua solidariedade:

Fabiana, eu sou casada com um auditor de uma instituição financeira. Não consigo imaginar como você vai cumprir sua missão de espalhar inovação em um órgão que tem mais de 2 mil auditores. Boa sorte!

Será que estou conseguindo espantar o azar? Aguarde cenas dos próximos capítulos… 🙂