Não é de hoje que as redes sociais realçam as diferenças entre as pessoas. Cada vez mais certas das suas opiniões e empolgadas em defender as suas (pós) verdades com uma dose bem servida de sentimento (paixão e ódio, para ficar nos dois mais comuns), encontrar concordância sobre qualquer tema tem se tornado bem difícil. Atualmente, o consenso parece sinal de derrota. Eu, você, meus amigos e seus amigos temos pensado muito mais antes de expor e discutir posições conflituosas entre si, seja por receio de um prejuízo à amizade ou por preguiça mesmo. E a unanimidade então, aquela burra, está bem sumida. Muita gente acredita que devemos comemorar cegamente esse momento em que a pluralidade de opiniões está cada vez mais evidente e que todos temos direito de concordar e discordar, ao mesmo tempo, sobre tudo.  Celebremos! Ou não.

Porém, há algo sobre o que todos nós, os amigos, os amigos de amigos e os cidadãos daqui concordamos em uníssono: o Estado brasileiro, em todas as suas esferas, áreas e competências, precisa funcionar (melhor?)! Bem melhor! Mesmo!

E o consenso se consolida mundo afora: para os governos funcionarem melhor e serem percebidos como organizações eficientes e efetivas, é preciso mudar. Agora e muito! Talvez, mais do que mudar. É preciso transformar a situação atual em uma nova realidade, bem diferente. As fórmulas são várias e a defesa de cada uma delas é o gatilho para aquele processo de discordância. Por isso, não pretendo e nem consigo expor e avaliar todas as principais nuances possíveis das mudanças estrutural e filosófica do modo de funcionar do Estado. Deixo isso para os especialistas, mesmo os barulhentos das nossas timelines, que na sua maioria são enfáticos em criticarem seus antis e nem tanto em debater suas teses e propor alternativas. Contudo, sobre um aspecto da mudança necessária do Estado vou ousar opinar e debater.

Lá vai. Todos que se importam com a vida presente e futura dos brasileiros e que atuam em profissões relacionadas ao funcionamento dos governos, às políticas públicas, à tecnologia e à inovação precisam iniciar, imediatamente, uma reflexão honesta sobre a (absolutamente!) necessária transformação digital do Estado Brasileiro. Ao concreto: o que exatamente significa “transformar” e o “ser digital”no contexto das organizações?

Transformar é muito mais do que melhorar. Transformar é mudar a essência, é repensar as premissas. É reconstruir. E a transformação digital representa a mudança estrutural e filosófica pela qual organizações públicas e privadas ao redor do mundo têm passado para adaptar seus produtos, serviços e interesses à uma realidade de tecnologia cada vez mais barata e disponível, um volume abissal de informações sobre tudo e uma sociedade (quase) plenamente conectada.

E “ser digital”? Não é só colocar tecnologia nessa tal transformação? É fazer melhor o que sempre foi ou deveria ter sido feito?

Não mesmo! Ser digital é, antes de mais nada, ser atual. É reconhecer que as premissas do passado estão sob ataque todos os dias. Ser digital é estar preparado para atender outra classe de clientes. No nosso caso, uma sociedade que já está conectada, que já vive a quarta revolução industrial e que tem acesso direto a produtos e serviços de qualidade mundial com um custo próximo a zero. Ser digital é aceitar honestamente que a única coisa certa é a mudança, e que as expectativas e exigências tendem a crescer, resolvidas por produtos cujos custos tendem a diminuir.

Ser digital não é estar exclusivamente centrado no desenvolvimento e uso da tecnologia, mas reconhecer que ela é fundamental. Ser digital é construir a sabedoria e a capacidade de utilizar todas as ferramentas – incluindo as tecnológicas – de modo inteligente. Ser digital é conceber, projetar e internalizar uma (quase sempre nova) maneira efetiva de resolver problemas. Ser digital é conseguir se beneficiar dos resultados de outras organizações e da experiência de outras “pessoas“ digitais, colaborando como regra. Ser digital é buscar a reinvenção interna e a confiança de parceiros externos com um único propósito: fazer florescer a colaboração vital da qual depende a sua existência. Ser digital é reconhecer que o erro é provável, mas também é a preparação necessária para o acerto e, por isso, é importante errar rápido.

Ser digital é estar centrado em resultados rápidos, sustentáveis e impressionantes.

A transformação digital não ocorre somente devido à tecnologia. A mudança se estabelece a partir da capacidade organizacional em utilizar plenamente a informação e de tecnologia para resolver problemas concretos, de modo muito eficiente, para atender as necessidades das pessoas.

Imagine uma organização que se destaca e é respeitada no ecossistema onde atua, que funciona baseada e com foco total na jornada dos seus clientes e parceiros em todas as interações com a organização e que se estrutura internamente, com uso intensivo de tecnologia e informação, para compor a base sólida dos seus resultados, do seu crescimento e da sua evolução. Parece digital, não é?

Você já imaginou, em algum devaneio, o Estado Digital no Brasil? Utopia, não? Mas o que tem sido a utopia senão o combustível mais poderoso da inovação, o “impossível” que tem motivado as mais impressionantes realizações humanas até hoje?

O República Digital é um espaço para alimentarmos essa utopia.

O objetivo é expor ideias e debater alternativas viáveis para uma transformação digital verdadeira do Estado em todas as suas esferas, em especial na forma como os serviços públicos são concebidos, gerenciados e entregues para os cidadãos.

Por aqui pretendo discutir e estimular a proposição das mudanças necessárias em diversos níveis e como viabilizá-las na prática, na tentativa de contribuir para a reinvenção do Estado e do aumento da percepção dos seus resultados por parte da população. Mais especificamente, os textos, vídeos, debates e entrevistas vão discutir as várias formas de construção do Estado Digital Exponencial que, aos moldes das organizações mais inovadoras do mundo, precisa (agora! já!) produzir resultados exponencialmente mais baratos e melhores para conseguir continuar existindo. Já adiantando, começarei pelas características das organizações exponenciais (ExO), termo criado nos corredores da Singularity University e que define aquelas que têm conseguido resultados inacreditáveis com poucos recursos. O mais importante: iniciar uma reflexão realista sobre a aplicabilidade dos atributos e das estratégias utilizadas pelas ExO no serviço público brasileiro.

Além disso, pretendo informar e analisar, sob a ótica da transformação digital, fatos relevantes para o Estado, como a edição de leis e decretos, a publicação de decisões do Tribunal de Contas da União, publicações recentes e conteúdo de eventos nacionais e internacionais que, de algum modo, estejam relacionados à transformação digital do Estado.  Vamos à caça de soluções criativas e práticas para serem experimentadas, debatidas e construídas em conjunto. Também vamos em busca de boas notícias. Para isso, o espaço estará sempre aberto para a divulgação das iniciativas bem sucedidas e dos projetos que mereçam servir de inspiração para outros.

E se você leu até aqui e de algum modo  trabalha pelo Estado ou para o Estado, uma mensagem direta: você é um agente essencial de transformação, queira ou não. Penso que não nos restam, enquanto profissionais públicos, muitas alternativas. Consegui encontrar somente duas: resistir ou mudar! Achar que a mudança do mundo guiada pela quarta revolução industrial é modinha e que um dia as coisas voltam ao normal!?!?! Ou mudar já, a começar por nós mesmos, incluindo as pessoas que conhecemos e as organizações onde trabalhamos. Extinção ou sobrevivência? Blue or red pill? É só escolher, mas tem que ser logo.

E ai? Chega de inércia? Convido todos a aprendermos juntos e fazendo, porque é assim que funciona.

Bem vindos ao República. #transformacaodigital #estadoexponencial