(Publicado originalmente no LinkedIn)

Muito se debate a respeito do recente sucesso da seleção brasileira. É indiscutível e notável o desempenho da seleção sob o comando de Tite. Os números, os resultados e o jogo dentro de campo agradam a torcida de forma quase unânime. Fez o brasileiro mais cético ficar menos receoso de voltar ao Mineirão para ver o atropelo sobre a Argentina. Somado ao recente sucesso fora de casa contra o Peru, o time registra marca impressionante em se tratando de eliminatórias para uma copa.

O desempenho do Brasil de Tite pode nos ajudar a entender um pouco do contexto do nosso provimento de serviços públicos pela internet e deixar o assunto um pouco mais leve (ao menos no estágio atual das eliminatórias!). Mas, por ora, permita-me introduzir o assunto do post…

No último dia 10 de novembro, ministrei a palestra “De governança a  serviços digitais. O que mudou (e o que precisa mudar) na TI pública” no 2º Seminário Brasil 100% Digital (www.brasildigital.gov.br), realizado em Brasília em parceria pelo TCU, Min. do Planejamento e TST. A gravação da palestra está no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=IyrgCH8rcdk.

Iniciei minha palestra enunciando o que, em minha leitura, significaram avanços estruturais relevantes na TI pública nos últimos 10 anos. Um dos principais foi a melhoria na capacidade de planejamento de TI. O índice de organizações federais que possuem planos de TI mais que dobrou em seis anos, subindo de 36.9% para quase 80% atualmente. Mudança que precisa ser comemorada e sustentada, pois é pilar para futuros avanços.

No entanto, o cidadão ainda está insatisfeito com a qualidade dos serviços públicos. E não é sem razão. São as incontáveis horas em filas, o excesso de burocracia, os sistemas fora do ar, os requerimentos de informações que já são do Estado, entre outras agruras que cidadãos e empresas vivenciam diariamente e que arrastam nossos níveis de competitividade para baixo. Nesse contexto, a agenda digital ganha maior relevância.

Assim, fiz questão de debater no evento minhas impressões pessoais sobre o tema governo digital. Aliás, digital está na moda, não? Se digital é hype, eletrônico é vintage! Qualquer organização que queira ser competitiva no mercado já elaborou sua estratégia digital! Discute-se a transformação digital a todo o tempo e quem vai liderar esse processo. E assim governos ao redor do mundo também entraram nessa.

Na apresentação, em síntese, minha principal mensagem foi: governo digital não é governo eletrônico, e mudanças serão necessárias para que possamos avançar do paradigma eletrônico para o digital. Precisaremos rediscutir o modelo de informatização do setor público, mas, em especial, o desenho de nossos serviços públicos para que o novo patamar seja atingido.

Evidentemente, na prática, tudo se concretiza em bits e bytes, se é que isso é possível.  Mas a clareza de concepção é necessária para se compreender as mudanças. Não vou me aprofundar nesse aspecto, pois muita gente já fez isso melhor do que eu seria capaz de fazer. Para quem deseja saber mais, recomendo a leitura de publicações da OCDE (http://migre.me/vvpCne da ONU (http://migre.me/vvpDd).

De maneira geral, e-government (ou governo eletrônico) remetia à passagem de serviços realizados de maneira tradicional, em ambientes físicos, para o mundo eletrônico ou virtual. Em resumo, era informatizar os processos já existentes.

O conceito de governo digital, ao contrário, implica na modernização dos serviços públicos, com o redesenho de processos com foco obsessivo na melhoria da experiência do cidadão, usuário dos serviços públicos.

(Pergunta do leitor: – Esqueceu do Tite?)

Esqueci não. A mudança na forma de organização tática e de funcionamento da seleção brasileira é inspiradora. Conhecido pelo estilo defensivo (e chamado de retranqueiro) em suas passagens modestas pelo Internacional, Tite levou um elenco médio (na minha opinião) do Corinthians a reiterados sucessos  (Vagner Love foi artilheiro com ele). E agora começa a repetir a dose na seleção liderando com folga as eliminatórias. É a #titemania voando alto.

Acredito não haver muitos segredos no sucesso de Tite sob o aspecto da gestão, mas o básico muito bem feito: liderança, planejamento, trabalho, estudo do adversário, mais trabalho, treinamentos dirigidos, pulso na hora mudar e mais trabalho. O que se vê é uma equipe em funcionamento. Passamos de modelo não funcional – pensado e discutido o tempo todo em torno de Neymar, para um conjunto taticamente organizado, que se movimenta com harmonia e ocupa espaços com eficiência – algo raro em terras tupiniquins.

A orquestração promovida por Tite em seus times é o elemento basilar da mudança de governo eletrônico para governo digital. Sem estratégia e organização das peças em campo, não é possível passar de um modelo ao outro. Explico.

A simplificação de processos e redução da burocracia, com a melhora na entrega para o cidadão, exige, necessariamente, mudança no desenho desses serviços. E isso implica em intensa integração de processos e organizações, algo que não estamos acostumados a fazer.

Talvez a face mais visível do governo digital é a integração dos portais e a construção de um canal único de interação com o cidadão. Um portal central onde o cidadão se autentica e passa a ter acesso a serviços providos por várias agências governamentais de maneira integrada, podendo emitir requerimentos e acompanhar o andamento de suas solicitações. No Brasil, já tivemos diversas iniciativas para criar portais de interação com o cidadão, mas, a cada nova tentativa, terminamos por colecionar um novo portal. Como referência, no evento citei o portal australiano MyGov (https://my.gov.au/), mas o portal do Reino Unido talvez seja o case de maior repercussão internacional. Não deixe de conhecer a transformação que eles fizeram: https://www.youtube.com/watch?v=4_1gld1PIkA.

Se a face mais visível é o estabelecimento de um portal único, a mais estruturante talvez seja a criação de plataformas – assunto que vou reservar para um próximo post.

Bem, mas, de maneira geral, a forma como construímos soluções precisa passar por mudanças. O modelo estruturado em silos se esgotou. Esse tema é vasto e o próprio TCU já se posicionou mais de uma vez sobre ele, por exemplo, em recomendação dirigida ao Planejamento no Acórdão 2.362/2015-TCU-Plenário:

9.1.1. efetue levantamento a fim de identificar demandas de soluções de TI comuns às organizações do Sistema de Administração dos Recursos de Tecnologia da Informação (Sisp), com vistas a analisar a oportunidade, a conveniência e a viabilidade de implementar o provimento de modo padronizado ou centralizado dessas soluções para as organizações do Sisp;

Embora o processo eletrônico nacional seja uma conquista que vem se consolidando (http://migre.me/vv8eg), ainda há muito o que se fazer, conforme demonstrou auditoria do Min. da Transparência (CGU): 95 organizações públicas estavam em processo de produção ou aquisição de software para gestão recursos humanos: http://migre.me/vv8mH. Em tempos de dificuldades econômicas, ganhar em eficiência e escala no provimento de TI é mais que necessário, torna-se questão de responsabilidade fiscal!

E essa não é uma realidade só brasileira. Países grandes como o Brasil e/ou com complexas estruturas governamentais estão tendo que lidar com a revisão de seus modelos. Acho que esse vídeo do GDS/UK resume bem a questão: https://youtu.be/ZzPU6Pdw05s?list=PL_lh3DTvXlt1_WfWBYB2Q_fXPRl4ckw5d.

Nesse sentido, precisaremos avançar também em outros pontos que discuti na apresentação e que podemos aprofundar em outro momento. São eles:

  • compartilhamento de infraestrutura
  • adoção de plataformas
  • remoção de barreiras ao intercâmbio de dados
  • conhecimento das necessidades e do perfil do cidadão
  • provimento de serviços para dispositivos móveis
  • atuação das empresas públicas de TI

Foi com governança que fechei minha apresentação no evento, e com ela gostaria de retomar a analogia com a seleção de Tite. Tenho debatido em quase todos os fóruns a que vou a importância do estabelecimento da governança de estado sobre a TI pública. A organização da TI de um país grande é complexa, com diversos agentes e partes interessadas interagindo: gestores, servidores, cidadãos, empresas privadas, empresas públicas de TI, órgãos de controle, órgãos centrais, órgãos reguladores, entre outros. Estabelecer o equilíbrio entre os interesses das partes interessadas e  dirigir a atuação dos agentes é função típica de governança, em benefício do principal: a sociedade.

Atualmente, no âmbito da TI os órgãos centrais têm buscado desempenhar a maior parte dessa função, com destaque para atuação da Secretaria de TI do Ministério do Planejamento e do Conselho Nacional de Justiça. No entanto, é preciso avançar. Há discussões relevantes, como a priorização de projetos, a distribuição do orçamento federal de TI, o direcionamento da atuação das empresas públicas, a mediação de conflitos sobre dados, entre outros, para os quais ainda não temos um arranjo institucional adequado e empoderado para tanto. Independentemente do modelo, mais centralizado ou mais distribuído, somente diretivo ou com apoio de um braço executivo, aprimorar a governança de Estado sobre TI é fundamental para que possamos reduzir a burocracia, evitar a ineficiência da atuação em silos, melhorar a integração e avançar rumo ao governo digital.

No fundo foi isso que Tite conseguiu: fazer com que a seleção não funcionasse apenas como uma seleção de craques, mas como um time que busca objetivos comuns por meio da ocupação simbiótica dos espaços. E, assim, ele vai acumulando sucessos. Desejo muito sucesso para ele e também para nós em nossa estrada rumo ao governo digital.